sábado, 5 de março de 2016

A autenticidade é a regra, o objetivo, a utopia, mas não pode virar impedimento

Boas!

Protelar pra escrever é uma arte na qual me considero mestre, mas hoje resolvi colocar no papel (ou simplesmente digitar) algumas ideias e "iluminações" que tive faz algumas semanas depois de uma conversa com um membro do grupo Haglaz, do Rio de Janeiro.

Basicamente a conversa foi sobre o "se ter todos os aparatos necessários para se fazer alguma coisa ou não" e isso me deixou com algumas coisas na cabeça e andei pensando se realmente faz sentido você manter um objetivo como desculpa para não fazer o que se gosta. Parece contraditório, mas vou explicando adiante.

Naturalmente não possuímos machados produzidos com as mesmas técnicas que no século VIII quando nascemos. A gente consegue esse tipo de coisa depois de um certo tempo, mas não é por isso que somos incapazes de cortar lenha com uma machadinha estilizada. E isso se aplica a tudo quando se começa a viver essa vida de recriação histórica.

O reenactment em si é uma prática que pode parecer cara pra quem está começando. E é, quando não se tem o devido preparo ou ajuda. E o brasileiro nunca foi o povo com o maior poder aquisitivo do planeta. Isso cria uma distância enorme entre o que se deseja fazer e o que se tem a viabilidade de fazer. Mas veja só, existem outros países com economia tão insegura quanto a nossa que avançam nessa cena. Por quê? Porque é mais importante dar um passo por dia do que sete a cada domingo. Não, não é a mesma coisa.

O recriacionista brasileiro é um pouco afobado. E é natural, já que é um meio novo que muitas vezes é a soma de tudo que o cara queria fazer. E existe um certo receio de "perder a onda" e deixar a chance de entrar pra esse mundinho passar. Pelo menos é algo que eu reparo nas pessoas que são "novas no rolê". Mas como disse no post anterior sobre ser dos 10% ou dos 90%, os 10% são estáveis, são pessoas que gostam disso e que sempre estarão ali mantendo a atividade em alta, mesmo que com um efetivo bem menor.

Essa afobação logo vira um desânimo, uma decepção. Porque entre o pessoal mais puritano existe uma lei maior de sine qua non em relação à autenticidade. E aqui eu amarro o texto até então: autenticidade é cara, sou nova ou novo no negócio e não tenho nada, meu dinheiro é curto, sou afobado e quero tudo, pessoal fodão olha feio pra minha batinha de algodão que nem de longe se parece com uma túnica de lã sou obrigado a me juntar com aqueles que fazem tudo errado mesmo porque querem e crio uma birra com o pessoal da autenticidade utópica, porque eles criaram uma comigo. Percebe o que estamos criando?

Cria-se uma rede de formação para noventaporcentos estimulada, financiada e desenvolvida pelos dezporcentistas que dizem lutar contra os mal reconstrucionistas. E é uma coisa meio cruel até, porque você cria barreiras tão grandes que depois de um tempo ficam intransponíveis. Aquela menina que chegou na festa com seu vestido de cetim toda empolgada e foi esculachada pela moça cheia de ouro e prata no pescoço vai gravar aquilo na cabeça, e vai ficar com medo e aversão daquela ostentação autêntica toda.

- Mas existem alternativas baratas e autênticas! - Alguém grita na multidão.
- Sim, existem.

Mas eis o grande problema com o ser humano: somos inclinados a querer aparecer. E falando em recriação histórica, todo mundo sabe que antigamente, em qualquer período, era a mesma coisa. Agora pensa você que pode pagar 100 reais num vestidinho bonitinho de princesa Disney e vai ser super aclamada entre seus amigos e parentes no Instagram com lentes de contato, cabelo arrumado, orelhinha de elfo e tudo o mais e de repente alguém te oferece, pelo mesmo valor, a grande e imperdível oportunidade de vestir um subvestido de linho cru, de andar descalça, sem maquiagem e cabelo bagunçado. E é o mesmo com a versão masculina da coisa: todo mundo quer ser o guerreiro típico de uma peça teatral de Henrique V ou Game of Thrones, mas ninguém quer parecer um mendigo, um pajem ou um camponês da Normandia do século XIV, por mais "acurado historicamente" que você consiga sem ter que gastar tanto.

Pois é. Mas você acha muito caro pagar 150 reais num par de sapatos de couro que só vai usar duas ou três vezes ao ano e que se pisar de mais em lama vai mofar, encolher ou rasgar. Como artesão eu digo, não é caro, não mesmo, mas eu tenho perfeita noção do poder aquisitivo do brasileiro médio. Pode não ser caro, mas é um valor que está fora do orçamento.

E sem o sapatinho de couro, as calças de lã 100% natural, a túnica de linho tingida com óxido de ferro numa grande panela em casa, seu kit de fazer fogo inspirado em achados arqueológicos (que você nunca vai usar, porque todo lugar que você for já vai ter uma fogueira acesa), sua espada que tem a mesma datação do resto da vestimenta, sua faca de acordo com a espada, mas que você vai ter que deixar na bainha, no ônibus, porque não pode entrar com "arma afiada" na festa e outros apetrechos devidamente catalogados por museus e livros, você não pode participar da patotinha. Certo? Em tese, mas na prática isso é erradíssimo.

Isso cria uma muralha para a prática do "bom reenactment". Ninguém vai gastar uma fortuna em seu primeiro mês de prática (supondo que tenha uma boa orientação, se não a fortuna quadriplica) sem nem saber o que é a prática em si. Pra chegar no terceiro mês e não querer mais. Ou ficar dependendo da vontade dos outros gastarem a mesma fortuna depois.

Então surge a alternativa que surgiu do membro do Haglaz que falei no começo do post: pratique direito, mesmo que não pareça direito. Como assim? Lá no Rio eles possuem espaço pra poder acampar e fazer outros tipos de atividade que são importantíssimos dentro do recriacionismo, sem incluir lutas ou feiras. Mas fazer uma tenda le lã grossa, ou linho de boa qualidade onde pode se chegar a gastar quase 40 metros de tecido costuma sair caro. Aí você fala "não vou fazer um acampamento temático até ter minha tenda de 2000 reais pronta" e você sabe que nunca vai ter, por mais que você queira. E você deixa de aproveitar as milhares de oportunidades de feriados prolongados sem chuva que vão aparecer na sua vida. Ou, você pode fazer como eles e levar a barraquinha de camping e deixar ela escondidinha enquanto você faz a vivência. Ou como eu mesmo resolvi fazer recentemente (depois da tal conversa), que decidi comprar algodão cru mesmo pra fazer uma tenda ao invés de esperar cair uma bolada na minha mão pra comprar um tecido mais apropriado. Quando cair a bolada, eu compro, mas não vou me privar de algo que eu gosto por um detalhe que é o tecido usado na tenda, que em boa parte dos casos só eu vou saber.

Entendem? É como dizer "não tenho uma calça apropriada, não irei participar das atividades do meu grupo por isso" e deixa pra fazer quando tiver a tal calça. Ou sapato. Ou um pedaço de sílex. Vira uma utopia, porque você não melhora em nada procrastinando a atividade, mas você acha que quando tiver aquela pedrinha bonita, tudo vai mudar. E não vai.

Eu passei a ser a favor de "substitutos temporários" e que durem o tempo que precisem durar. Quanto mais eu acampar com uma tenda de algodão, mais eu vou querer uma tenda de lã. Se não "eu não estou precisando mesmo, sabe-se lá quando vou acampar" e vai empurrando, sem viver aquilo que digo gostar tanto. E isso serve pra tudo.

É claro que existem limites, já que eu sou do tipo chatão da autenticidade que luta pra conseguir se manter nos 10% do post anterior. Uma pessoa que diz amar o reenactment e em um ano não consegue reservar dez reais por mês pra comprar sequer uma túnica, mas gasta metade desse valor comprando uma bata indiana, fica difícil, embora existam casos e casos. Ou alguém que diz em claro e bom som "ah, não vou pagar 800 mangos numa espada certinha e que funcione, porque não ligo. Só quero mesmo é me divertir pagando 500 numa toda errada e que talvez quebre que é mais barato", coisa que já passa do conceito da economia ou do pagar mais barato e vira descaso com uma prática inteira. Ou casos ainda mais esdrúchulos como preferir pagar 300 reais num par de botas completamente anacrônicas para usar em atividades recriacionistas ao invés de pagar metade desse valor em peças feitas exclusivamente pra isso e dizer que não comprou a mais barata porque "estava caro" e ainda por cima dizer depois que "não tenho dinheiro para uma túnica nova". Anedotas do reenactment BR. Esses serão sempre membros dos 90%.

Agora, pra fechar o texto voltando ao assunto central, é a questão do esforço que deve contar. Uma coisa é você estar satisfeito com um kit todo feito sem apego nenhum à autenticidade. Outra é você saber que possui erros em suas coisas, mas as usa enquanto não consegue alguma coisa melhor (e demonstra interesse em ter, de fato, algo melhor). No meu grupo, pelo menos, eu pediria pra pessoa esconder os erros pra não aparecerem na foto, mas isso não significa cortar a pessoa completamente do círculo, a menos que virasse a primeira opção, de alguém que não está nem aí pra busca por essa utopia inalcançável chamada autenticidade. Mas nada nos impede de viver uma outra época sem estarmos vestidos adequadamente em cada pequeno detalhe para ela.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Uma mudança de ares, perda de conceitos e a relatividade de Sturgeon

Olá a todos, mais uma vez, depois de dois anos!

Venho arrastado pra voltar a escrever aqui. Acho que o blog perdeu um pouco da função depois do aparecimento de tantos grupos que de alguma forma abordam o reenactment. Sem contar um distanciamento de minha parte na prática e de um natural amadurecimento pessoal, coisa que acontece com a maioria das pessoas depois de longos períodos de tempo. Acontece que hoje, por motivos infinitos, resolvi escrever. Quem sabe não posto de novo ainda esse ano?

Bom, o tema principal de hoje é a mudança de cenário de dois anos atrás pra hoje. Naquela época tínhamos o quê? Meia dúzia de grupos de recriacionismo medieval no Brasil? Sérios devíamos ser uns três ou quatro. Hoje pelo menos no Sudeste tem um grupo em cada capital. No Paraná existem outros. E sinceramente nem sei mais, foi-se o tempo que eu realmente andava "antenado" nisso ou que eu me preocupava com isso.

O aparecimento de grupos de recriacionismo no Brasil é uma notícia que traz duas consequências: uma popularização da prática, a ponto de não ser mais vista com olhares cheios de receio e de certo modo preconceito e a quase infalibilidade da Lei de Sturgeon. Pros que não sabem, a "Lei de Sturgeon" afirma que 90% de qualquer coisa é uma porcaria.

Junto com o reenactment outras atividades tem ganhado notoriedade entre os entusiastas, inclusive havendo uma certa "interdisciplinaridade" mútua, principalmente o HMB e as HEMA, que já mencionei em outras postagens, embora que, assumo, talvez tenham sido explicadas de forma errônea. Vivendo e aprendendo e assim como qualquer um que esteja lendo, não sei de tudo.

Assim como no esporte, existe gente que fala que reenactment é mais legal ou que HEMA é mais preciso ou que HMB é mais másculo ou whatever. Parabéns para você que não acha que tudo deve estar em uma hierarquia vertical, porque assim como nós somos diferentes, as atividades também são e visam coisas distintas. Um babaca com baixa auto-estima em relação ao próprio quoeficiente de testosterona armado com um falcione obviamente vai apreciar o HMB muito mais do que HEMA. Mas veja só: uma estudante de História interessada no aspecto "bagunça" de uma batalha mais próxima possível do real também. Não existe isso de esteriótipos de participantes.

O exemplo mais claro disso é uma feira recriacionista qualquer. Você encontrará senhores de idade ao lado de adolescentes, mulheres e homens, pessoas que estão ali pela farra e pessoas que estão ali por motivos mais introspectivos... Enfim, os motivos são diversos. E isso é positivo, afinal se você quer recriar um período ao máximo você precisa de todas as diferenças subjetivas possíveis.

O reenactment, obviamente, não é HMB ou HEMA, pois ele não se limita a um único aspecto de determinada época. E é por isso que ele é tão confuso na cabeça de muitos recriacionistas ou entusiastas no Brasil. Digo no Brasil pois, bom, dois anos atrás o cenário era bem menor do que é hoje. Nós não temos uma "cultura de reenactment". Ainda.

A confusão surge quando alguns acham que quando você luta com armaduras do século XIV você faz HMB e quando você usa apenas um escudo redondo, um elmo nasal e uma espada viking você faz reenactment. Sério, já vi gente falando isso. Ou que uma espada é só pra HMB e não para outras coisas, como HEMA, por conta do peso e balanço, quando AMBAS tentam replicar ao máximo uma original do período em questão. Teoricamente elas não deveriam ser iguais? Aí entram aspectos quanto a durabilidade... Mas não deveriam todas aguentar?

Muito disso é moda. Dois terços dos praticantes de qualquer uma dessas atividades vieram de outra delas ou ainda do swordplay ou RPG. E não que isso seja negativo, pelo contrário, acredito mesmo que devemos testar essas atividades enquanto nos interessamos e eventualmente encontrar alguma que nos complete ainda mais - desde que isso não envolva arriscar a vida de terceiros. Ou desde que isso não seja crime... Enfim, deu pra entender.

Novamente, não temos uma cultura da coisa toda, pois ainda é tudo muito recente. Observando algumas fotos de eventos "recriacionistas" europeus da década de 80 ou 90 é engraçado imaginar como aqueles caras de coturno hoje são os tiozões respeitados na rodinha. Ocorree uma evolução do conceito, um refinamento, o surgimento de uma cultura. E para isso foi necessário um bom tempo de amadurecimento da ideia e, principalmente, dessa gente toda.

No entanto, com a comunicação do jeito que anda e tudo o mais, acho uma verdadeira burrice termos que sofrer vinte, trinta anos para consolidar uma prática (ou algumas, levando em conta as outras citadas aqui) sozinhos, sendo que podemos usar do exemplo alheio. E a prática vai demorar para se consolidar se mantivermos bairrismos e grupismos que não existem nem na própria Europa, com tantos e tantos movimentos separatistas e tudo o mais.

Bom, o primeiro passo nós já demos, estamos ganhando quantidade, ao menos. E eu, como alguém interessado em certos purismos, me questiono quanto à qualidade destes novos medievalistas, que compartilham sem nenhum julgamento afirmações de memes sem fontes e coisas similares. Ou que criticam severamente aqueles que gastam mais tempo estudando do que fazendo as coisas. Ou ainda que simplesmente "bostejam" pelo puro e simples prazer em bostejar.

Mas é aí que acho importante a tal da lei de Sturgeon. 90% dos nossos reenactors são ruins (mas, por ruins, classifico igualmente o cara que é realmente péssimo e também o cara regular, mas esforçado. É só uma categoria, não vou complicar a lei do cara). Pois é. 90% dos da Europa também. Acontece que aqui os 10% ainda são poucos e por isso é importante nesse estágio infantil de nossa cena que cresçamos em número, independente da seriedade desse contingente. Para que um dia esses 10% sejam de alguma forma expressivos e, talvez, sirva de inspiração para o resto. Obviamente que como toda lei universal criada por um escritor de ficção científica essas proporções podem variar e eventualmente os 10% superem em número o resto, como aos poucos aconteceu com a Europa e como com certeza um dia vai acontecer no Brasil. O grande problema que aflige inconcientemente alguns dos bons reenactors daqui é quando esse dia vai acontecer.

Alguns, perderam o saco e simplesmente focam-se nos próprios umbigos, fortalecendo seus próprios redutos, enquanto outros gritam como cruzados de uma causa desesperada, tentando cumprir uma espécie de profecia onde o nome do "escolhido"ainda está vago. Eu me enquadro no primeiro grupo, embora já me enquadrei no segundo. Aliás, criei esse blog justamente pra isso, até me convencer de que esse cara não seria eu.

Existem grupos e grupos, pessoas e pessoas E alguns indivíduos que dois anos atrás eu via com certo descontentamente hoje são o exemplo de tudo aquilo que escrevi de melhor aqui. E outros simplesmente continuaram agindo da pior forma que pude exemplificar, quando não pioraram (e é, tem gente que piora).

Uma coisa é fato, teleológico: um dia teremos uma "cena" respeitável. Os indícios são o surgimento de novos focos interessados, viagens internacionais realizadas por entusiastas, surgimento de novas festas temáticas a cada ano... Uma hora a coisa realmente vai, independente de tentarmos com afinco corrigir os erros dos outros ou não.

Só nos resta decidir se estamos do lado dos 10% ou dos 90%. E quanto mais gente tiver de um lado, naturalmente mais gente terá do outro. Todo mundo ganha.

sábado, 7 de dezembro de 2013

O estudo, suas consequências e suas necessidades.


Olá, amigos!

Pois bem, o que seria uma semana se tornou algo como doze. E não haverá mais uma periodicidade definitiva por aqui. Isso, por incrível que pareça, consome mais tempo do que eu gostaria e tenho outras prioridades, sinto muito.

Como disse na última postagem, iria falar do reenactment e o estudo propriamente dito nesta. Antes tarde do que nunca, afinal.

Bom, já falei muito em postagens anteriores sobre a necessidade do estudo, sobre o porque do estudo, sobre isso e aquilo e blablablá com alguma coisa além. A questão de hoje é diferente. Se trata um pouco da relação com a instituição e do modo a se estudar e apresentar esses resultados.

Obviamente, cada pessoa estuda de um jeito e ensina de um jeito. Tudo é troca então, sim, se ensina mesmo sem querer. E esse é um outro ponto, aliás. Mas o caso que quero tratar é mais ou menos sobre que tipos de material ter como base ou como um recriacionista deve se portar devido à sua – acreditem, ela existe – responsabilidade.

Primeiramente, sobre o aprendizado:

Pois bem, quero fazer recriacionismo de algum período e não sei por onde começar. O que faço?

Muitos recriacionistas cometem o erro gigantesco de comprar todos os manuais básicos sobre algum tema x e com isso, leem a mesma coisa várias vezes sem nenhum aprofundamento e acham que realmente estão fazendo um grande negócio.

Manual que me refiro são livros como a série “Grandes Civilizações do Passado”, um bom material em português, mas que é para um público geral e não específico.

Vejam bem, não critico quem os lê ou quem gosta deles. E nem quem se sente seguro lendo apenas este tipo de material. Acho que é justamente por onde começa e, para muitos BONS recriacionistas, é também onde acaba. Porém são livros genéricos e tudo vai do seu objetivo como reenactor.

Antes de tudo, leia e veja se você gostou do período como ele é apresentado. Leia uns dois, pra ter uma noção do que um autor pode dizer que foi negligenciado pelo outro e compare. Se algo te chamar a atenção, pesquise, se não, passe pro próximo assunto. Não é crime dizer que não se interessa pela, digamos, produção de vidro anglo saxônica do século VI e que por isso não entende os processos nem a importância econômica disso. Muito pior é afirmar categoricamente que se tinha vidro na Suécia do século IX é porque foi comercializado com árabes e que não existia produção local, porque afinal, quem seria capaz de juntar areia e fogo pra fazer vidro longe do Oriente Médio e norte da África naquele tempo, não é mesmo?

Por incrível que pareça esse tipo de bobagem é repetida por pessoas – não só aqui do Brasil, mas no mundo todo – que possuem essa ideia superficialíssima do período que “estudam”. Porque folhearam uma revista de 14 páginas sobre determinado assunto e se dizem doutores.

Pois bem, as motivações de um recriacionista não são as mesmas de um doutor em história ou arqueologia. Mas existe uma responsabilidade por parte de alguém que recria saber do que se trata aquilo que diz recriar. Gosto da analogia de astrônomos e astronautas. Um estuda e graças a isso possibilita ao segundo ficar lá, voandinho de boa no espaço, mas o astronauta precisa saber que se tirar seu traje ele morre. E também precisa saber controlar os equipamentos que o engenheiro espacial fez e saber as leis da física que não se aplicam a ele quando está em gravidade zero e tudo o mais. A desculpa de ser um astronauta não o permite ser burro, pelo contrário. Mesmo que ele não saiba nem de longe tudo o que o astrônomo faz, ele precisa saber muita coisa.

O reenactor é um astronauta. No espaço sideral da recriação histórica é impossível manter suas condições vitais sem uma ajudinha dos astrônomos (que aqui no nosso caso são historiadores, arqueólogos, artistas e artesões que recriam peças, etc). Nós precisamos de estudos sérios porque eles nos dão segurança e credibilidade. Ou, como diria um grande mestre que tive na minha passagem breve pela faculdade de História, são esses estudos que nos legitimam.

Nós não temos o dever de ler fontes no original e uma infinidade de artigos acadêmicos sobre tudo o que acontecia no recorte que escolhemos, mas se quisermos fazer, por exemplo, uma pesquisa quanto à fundição de ouro na Grécia Clássica, é bom fuçar tudo a respeito das nossas dúvidas antes de gastar uma fortuna tentando pra dar errado.

Volto então a falar de manuais. Eles são necessários para TODO recriacionista, quando disponíveis. Po, eles comprimem diversos assuntos em um mesmo livro e você pode ter uma noção básica de tudo. Acontece que se você mergulha de cabeça nesse universo e se torna um fanático (como... eu) manuais não bastam. E você não pode se dar ao luxo de passar informações erradas ou meio lidas por preguiça. É muito melhor assumir que não sabe do que falar bobagem. Porém, ler diversos manuais da mesma coisa para se mostrar "entendedor" não fazem nada a você além de reafirmar o que você já leu no anterior.

Quanto à responsabilidade que assumimos ao recriar uma coisa, acontece que só de fazer e ser observado já estamos passando alguma coisa. E devemos tomar cuidado com o que fazemos. Um recriacionista não pode chegar no meio de um público dizer que aquela função que executa é a melhor do mundo e que era isso isso e aquilo, porque gostou ou leu um texto que falava SÓ sobre aquilo.
Para que entendam, eu sou cuteleiro. Obviamente leio muitos artigos que falam APENAS sobre a produção de lâminas no período viking. Se é um artigo que fala sobre aquilo, ele vai dizer a importância daquilo, sem necessariamente citar as infinitas outras profissões e isso vai dar a conotação de que as outras profissões, perto da produção de armas, são menores, irrelevantes e tudo o mais. Se eu não tenho um conhecimento amplo da coisa, posso me pegar acreditando nisso. Aí reside o problema. Imaginem eu dizendo que “o ferreiro na Era Viking era a profissão mais importante, porque o aço era isso e aquilo e a faca era a da melhor qualidade” e outras asneiras mais. Eu estou mentindo, baseado numa pesquisa incompleta da minha parte, que analisou um ofício em um contexto isolado. Eu não preciso saber tudo sobre os demais, já que eles não me interessam, mas devo saber o básico, saber em que contexto essa forjaria está inserida.

Todo reenactor precisa dos manuais porque eles poupam tempo nesse sentido. Eu estudo o tema, dentro dele, que me interessa. Além do mais, esse tipo de livro nunca é escrito por um cara só. Quase sempre são ajuntados de textos de diversos estudiosos sobre cada tema, organizados por um idealizador. Dentro da própria academia cada um se especializa em algo, mas sem negligenciar o contexto todo todo, mesmo que não entenda tudo sobre tudo. Em outras palavras, uma pessoa com pós doc em pedras rúnicas gotlandesas pode não saber NADA sobre quais peixes serviam de alimento na mesma ilha. Mas sabe que os gotlandeses pescavam e que tinham conexões comerciais e que eram economicamente privilegiados e tudo o mais.

Uma coisa que eu já vi muito em meus estudos é arqueólogo, por exemplo, que na hora de detalhar uma espada dá informações incompletas e que, para mim, são óbvias ou mesmo contrárias às descrições, porque eles NÃO SÃO conhecedores de siderurgia. E eles não tem a menor obrigação de ser. Na maioria dos casos, eles se abstém. E se a própria chefe do departamento de história, arqueologia e preservação da Universidade de Oslo deixa claro que não sabe algo, quem é o recriacionista f**ão pra dizer que sabe tudo e dizer que “vidro na Escandinávia com certeza era importado”?

Bom, o outro fator que queira falar brevemente aqui é uma continuação deste. Naturalmente, o astrônomo vira astronauta e o astronauta vira astrônomo. E misturam essas funções. Nada mais natural e nada mais desejável, embora não sejam todos que possuem vocação pras duas coisas.

Como disse, nem sempre o historiador possui conhecimento técnico sobre alguns assuntos. Natural. E aí surge o dilema: conciliar o estudo de antropologia, arqueologia, história, linguística e tudo o mais com mais essa área do conhecimento pra ontem oooouuuu chamar a ajuda de um cara que entenda deste assunto em especial, mesmo que em detrimento do resto? Em boa parte dos casos, a segunda opção é a mais escolhida. Por motivos mais que óbvios.

Uma dessas ocasiões é o estudo dos artefatos de Staffordshire. Pra muitos desses estudos a equipe de pesquisadores conta com recriacionistas ou artesãos especializados em recriar objetos dessa época. Isso gera uma compreensão muito maior para ambos os lados, de como as coisas eram feitas e consequentemente o possível valor que tais coisas tinham. Isso amplia o contexto, indica técnicas que eram usadas, as origens desses materiais, a qualidade de determinadas peças em detrimento de outras e por aí vai.

No caso de uma grande batalha, é possível saber em que proporções o que as fontes históricas nos contam é ou não verdade, se cabiam duzentas pessoas num barco, se uma espada podia realmente cortar uma pessoa em dois... Coisa que um historiador em sua escrivaninha não pode afirmar sem alguns “testes”, que caem na seara do reenactor.

Recentemente li um ensaio sobre arcos e flechas na Era Viking que me decepcionou, por exemplo, com uma hipervalorização da arma só possível pra quem nunca atirou com um contra uma parede de escudo colada em outra. Se ele tivesse ido atrás de estudos feitos por recriacionistas-historiadores, poderia ter apresentado uma argumentação bem melhor do que a que apresentou e por aí vai.

A Academia se aproveita desse “estudo de campo voluntário” em muitas ocasiões, pois ambos os lados só tem a ganhar com isso. E os envolvidos no reenactment se envolvem com a Academia pois ela traz informações que seriam inalcançáveis de outra forma. Astrônomo e astronauta. Sem um cara pra ir pegar pedaços da lua, não é possível estudar a composição do solo de lá. Sem um astrônomo pra dizer O QUE É a lua, o astronauta não teria o que fazer.

A diferença na analogia é que o recriacionista trabalha por conta própria, por questões pessoais e movido por pura curiosidade e pode focar seu estudo no que bem entender, negligenciando um aprofundamento em assuntos que não lhe importem.

Mas a responsabilidade é a mesma. Não dá pra dizer, como já vi uma vez um membro de um grupo europeu dizendo, que “Vikings criavam lobos como animais de estimação, não cães”, só porque ouviu algo parecido em alguma letra de música.

Nós tal como historiadores, temos um compromisso com a verdade, mesmo que seja uma verdade entre infinitas.

Abraços e até o próximo post.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O recriacionista e a instituição

Boa noite!

O tema de hoje será continuado na próxima semana, de certo modo, no qual falarei sobre o estudo propriamente dito, mas hoje falarei sobre a correlação reenactment/instituição. Por instituição eu me refiro com mais ênfase à ideia de Universidade.

Mais uma vez, vou aplicar o alvo da fala prioritariamente ao exterior por três motivos: a) no Brasil não há essa relação ainda, pelo simples fato de não termos recriacionismo (digo numa escala visível). Simples assim. b) apesar de podermos criar uma intimidade entre a prática e as Universidades através de pesquisas de extensão, há no meio acadêmico nacional muita gente que toma o reenactment como uma brincadeira sem seriedade. Há também o fato de muita gente ligada ao ensino formal, aqui, desmerecer o não formal, como “irrelevante” ou até contrário às suas intenções. c) por último mas não menos importante, há o fato de que algumas universidades só se proporiam a dar apoio à atividade da recriação histórica se essa história fosse um eco da nossa. O que de certa forma não está errado, claro, mas excluir o alheio é bem diferente de favorecer o próprio e aqui, por questões políticas vigentes, apenas alguns “alheios” são “próprios” (como o esforço público em tornar nossa matriz africana mais brasileira do que a indígena, só pra citar um exemplo).

Enfim, vamos lá.

A recriação (com i), além de ser recreativa (com e), tem também o caráter educativo, como já disse aqui no blog antes. Essa forma de ensino se dá, primariamente, no âmbito não formal, ou seja, um ensino não institucional, sem cartilhas pré-definidas, mas que ainda assim transmite algo.

Meu crime: sou artista, não historiador. Porém, cursei uma faculdade de História por algum tempo e a relação entre formalidade e informalidade nessas duas áreas é completamente diferente.

Na educação brasileira, apesar de estar revendo consideravelmente esta estrutura nas últimas duas décadas, há uma hierarquização das formas de ensino. Em primeiro lugar vem o ensino institucional, fechado, com sua ementa bem definida e tudo o mais Este é o chamado ensino formal (desculpem a repetição de termos, mas é necessária). À seguir vem o ensino não formal, com compromissos muitas vezes mais sociais do que educativos. Ainda assim, ele tem uma certa organização para que alcance suas intenções. Por último vem o ensino informal, diferente do anterior. Basicamente tudo que se faz é ensino informal se não entra nas duas categorias já citadas, podendo ser uma conversa com o pasteleiro sobre futebol ou ler o jornal sobre o clima.

Como disse, estamos avançando, mas nos meios acadêmicos de História ainda reina um pouco essa hierarquização (afinal, professores transmitem muito mais da sua própria visão de mundo a seus alunos do que se poderia imaginar). No meio da Arte isso é diferente, porque... Bem, porque artista é tudo louco, como diria o resto da população. Em breve, se nada de errado ocorrer, a educação brasileira como um todo perceberá a ferramenta que está deixando na gaveta.

E o que tudo isso tem a ver com o recriacionismo?

Bom, sendo uma modalidade não formal de ensino, tudo. Em muitos países há a integração dessas três esferas, pois as três se articulam continuamente na formação do indivíduo. Negar ou menosprezar alguma delas é, quase que literalmente, tirar uma perna de um tripé. Ou pelo menos encurtá-la, deixando-o desestabilizado.

Na Europa, a Academia (erudição, pessoal, não musculação) passou a adotar o recriacionismo como uma potente forma de atingir a população com assuntos que, de outra forma, ficariam meio “mal-explicados”.

Traduzindo: ao invés de deixar qualquer um disseminar um conhecimento de forma errada, causando uma desinformação tremenda sobre uma parcela da sociedade, a Universidade assume o papel de transmitir esse conhecimento de um modo, ao mesmo temo que atraente, confiável. É claro que no caso de um novo regime totalitário qualquer, isso pode e com certeza VAI dar merda, mas nessas situações, independe do não formal, daria, todavia.

Bom, se uma Universidade toma as rédeas da transmissão de pesquisas acadêmicas para o grande público, inevitavelmente você desmonta esteriótipos errados. Imaginemos essa situação ideal aqui no Brasil: Se houvesse, digamos, no Museu do Ipiranga, um evento cujo tema fosse a proclamação da Independência, com gente vestida como alguém do início do século XIX, mas com um ator fazendo Dom Pedro em cima de um burro de carga voltando de Santos, o ilustre e equivocado (mas belíssimo, pra sermos justos) quadro de Pedro Américo poderia ser, finalmente, encarado como uma interpretação romântica do grito e não como um quase-retrato, como alguns o enxergam.

Um evento desses seria algo visualmente fantástico para um público leigo que, “por osmose”, acabaria entrando no clima e inevitavelmente aprenderia algo sobre a história de nosso país. Com uma “tradicionalização” desse ato, digamos, todos os dias 7 de Setembro, viraria uma espécie de evento turístico que acabaria gerando mais interesse do povo como um todo por história, que levaria à leitura, à uma maior acumulação de conhecimento, que geraria mais senso crítico e blablabla...

Não digo que o reenactment é a solução da humanidade, óbvio que não, mas pode ser usado como um passo para uma valorização da cultura, sem demagogias politiqueiras ou valorização de determinados aspectos através da desvalorização de outros (como certas políticas nacionais que nos rodeiam atualmente).

No exterior isso ocorre. Os “Open-air museums” são presentes em diversos lugares na Europa. A encenação da batalha de Hastings é um evento aguardado por milhares de reenactors todos os anos. Mesmo museus “tradicionais” às vezes apresentam réplicas de peças de época (que por sua vez são, também, recriação histórica) que podem ser seguradas ou vestidas pelo público, geralmente para que tirem fotos, mas que os fazem ver como seria o original e tocar algo muito próximo.

Além disso, é muito mais interessante e divertido você aprender alguma coisa num museu através de atividades do que lendo placas e textos de parede. Esses são indispensáveis, claro, mas se você ficar curioso, provavelmente vai ler com mais vontade e aí se lembrará dele por mais tempo.

Para crianças (o clichê de “futuro da nação” é cai bem nesse momento) é ainda mais divertido, porque ao invés de ver um manequim, frio e estático dentro de uma vitrine, ela veria, por exemplo, um ferreiro martelando uma ferradura numa forja a carvão. Ouviria, sentiria o calor. Essa experiência dificilmente seria apagada da mente dela e mesmo que ela fosse trabalhar com TI, com certeza haveria um maior respeito por essa ou qualquer outra área menos “avançada tecnologicamente”, graças a alguma lembrança agradável (torcendo pra criança não enfiar a mão na brasa, claro, já que seu sentimento acabaria se invertendo...)..

E o que isso tem a ver com universidades em si? Bom, a maioria dos museus do mundo, independente da área de pesquisa, são administrados por universidades. O próprio Museu do Ipiranga é da USP.

É muito mais barato prum museu (e, portanto pra Universidade que o mantém) convidar recriacionistas para esses eventos e demonstrações do que treinar funcionários, contratar atores ou mesmo contratar profisionais especializados nessas áreas. O reenactor, assim, ganha uma boa área de atuação e um reconhecimento social como um agente formador e não apenas um excêntrico desajustado.

Apesar de eu, por exemplo, trabalhar como cuteleiro e gostar das tais dark ages, adoraria me vestir como um ferreiro colonial do século XVIII e mostrar pras pessoas como era a confecção de ferrarias de campanha (supondo que eu as soubesse fazer, claro. E eu com certeza não cobraria nada por isso se tivesse esse espaço. Claro, se uma instituição dissesse “preciso de você para tal dia”, a coisa muda de figura, mas se fosse um evento para recriacionistas, com um cronograma livre e tal, eu não estaria lá “à trabalho”, mas sim “por lazer”. E acredito que a maioria dos recriacionistas envolvidos com algum tipo de produção relacionada ao período que recria pensa da mesma forma.

Para o recriacionismo em si, por outro lado, acaba surgindo uma responsabilidade saudável. Se um museu tenta retratar um período, automaticamente ele irá tentar convidar os reenactors que tenham qualidade para tal e não qualquer um. Dessa maneira, irá chegar naqueles que conheçam o período através do estudo. O próprio museu, dessa maneira, pode disponibilizar suas pesquisas e acervo para enriquecer essa recriação, melhorando a qualidade da prática para não “sujar sua imagem”.

Assim surge uma interdependência: a instituição precisa de BONS recriacionistas e o recriacionista precisa de BOAS pesquisas (criadas principalmente por pesquisadores de universidades). Ambos saem ganhando, ainda que não haja um compromisso fixo de exclusividade em nenhuma parte.

E o público sai ganhando em dobro: aprende, interage, se diverte e consegue, diferente do conhecer ou entender, compreender por um momento um período deixado para trás no tempo.


Até a próxima semana.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A luta no recriacionismo histórico

Boa noite!

O assunto de hoje é um piso no calo de muita gente, embora infelizmente acho que os assuntos anteriores também são.

A postagem poderia ser resumida em "lutas, não necessariamente, são recriacionismo".

Explicando os motivos que me levaram a escrever isso:

Vejo algumas pessoas confundindo apresentações de batalha com recriação histórica. Vejo algumas pessoas chamando Battle of Nations de recriação histórica. Vejo algumas pessoas chamando batalha campal de recriação histórica e por aí vai a lista. Não, não necessariamente essas coisas tem qualquer ligação com a recriação histórica.

UFC não é recriação histórica e não há nenhuma dúvida quanto a isso, tal como o campeonato mundial de luta greco-romana também não o é, mesmo sabendo que as pessoas praticam wrestling desde que os primeiros animais descobriram que dá pra "prensar" o outro na parede. Se fosse assim, o simples fato de falar qualquer outra língua seria uma espécie de reenactment.

Pois bem, dentro desse "mundinho colorido" do reenactment, é comum voltarmos nossas atenções ao aspecto bélico das culturas do passado. Não porque sem elas não faríamos recriacionismo, mas porque é, simplesmente, divertido. Ao ir pra um festival como o Woling, Hastings ou Foteviken, lutar é a atividade mais "popular". No sentido de ser democrático mesmo: qualquer um pode chegar lá com o devido preparo prévio, pegar uma espada e bater nos amigos, sabendo que não vai morrer com isso e que vai extravasar pelo menos um pouco.

No entanto, esse "live steel", que é um nome comum dado à prática de lutar com armas de aço, não é próprio da recriação histórica. É apenas mais uma prática absorvida pelos recriacionistas. E também não é o mesmo que o HEMA, Stage Combat ou a batalha campal popular no Brasil, ou como o SCA.

Pra explicar um pouco, vou resumir (injustamente, pois o espaço é curtíssimo) essas práticas.

Live steel: Imagine alguns caras com armas de aço, se batendo tendo algumas regras como parâmetro. Há uma certa necessidade de preparo físico, mas não tanto domínio de técnicas. Não é uma arte marcial, mas o resultado de uma vontade de se atacar com espadas e machados. O Battle of Nations (um sonho meu, assumo) não deixa de ser, em boa parte, um Live Steel. Nos EUA é até chamado de "Combate com Armadura" esse tipo de esporte. Veja bem, esporte não é arte marcial ou vice versa, mas muitas vezes um comporta características do outro. Apesar disso, algumas equipes do BoN não são apenas praticantes de Live Steel, mas sim de HEMA.

HEMA: Historical European Martial Arts. É exatamente o que o nome sugere. Assim como o Kendo está para o Kenjutsu e a Esgrima Olímpica está para a Esgrima Clássica, o Live Steel pode estar para a HEMA. Digo "pode estar" pois o Live Steel, como já disse, nem sempre envolve técnicas avançadas, é mais uma brincadeira que um esporte na maior parte dos casos, mas às vezes é encarado de forma bem esportiva, com regras claras e movimentos extraídos de grandes mestres. HEMA, porém, é uma arte marcial de fato. Ou melhor, várias artes marciais, construídas e reconstruídas através da leitura e estudo de manuais medievais e renascentistas e praticadas com seriedade em muitos países. Claro que em suas competições ela é tratada como um esporte, mas há muito mais nela, como em toda arte marcial: há filosofia, preparo físico, estudo e por aí vai. Por si só é uma recriação histórica, na mesma proporção que os mais tradicionalistas dojos de karate fazem, mas a vontade não é ilustrar um período e sim compreender um pequeno aspecto dele. Não importa como as armas eram feitas se elas não tiverem a qualidade. Não importa as roupas se elas não possuem o conforto e a resistência de hoje e por aí vai. É uma prática que se volta para si própria e para os praticantes e não para um público, ainda que tudo seja divulgado, entendem?

Stage Combat: Teatro, pura e simplesmente. Lutas ensaiadas ou, pelo menos, com pouca improvisação. O que importa é um "bom show". Obviamente, para um bom show deve haver verosimilhança e para tal, bons coreógrafos vão estudar os movimentos de bons lutadores. O principal atrativo do Stage Combat é que ele é realmente mais emocionante que uma luta "de verdade". Combates reais tendem a ser rápidos ou muito parados (paradoxo facilmente observável numa luta), enquanto no Stage há dramaticidade, enredo e tudo o que o teatro pode fazer. No Brasil temos um bom grupo que apresenta Stage Combat ao mesmo tempo em que estuda Esgrima Clássica Renascentista (que não deixa de ser uma forma de HEMA), a Frater Pendragon. Um exemplo internacional são os tchecos do Merlet com apresentações realmente de tirar o fôlego.

Batalha Campal/SCA: O SCA (Society for Criative Anachronism) e a Batalha Campal possuem preceitos similares, portanto falarei de ambos no mesmo parágrafo: divertir os competidores, proporcionar uma experiência mais ou menos segura, estimular o imaginário. Ambos usam armas "de mentira", geralmente de espuma, vinil ou coisas similares. A idéia é fazer uma espécie de jogo, com acumulação de pontos, vencedores e perdedores. Se você acerta alguém, ganha pontos. Se acerta um certo número de vezes, o outro "morre" e saí da brincadeira até a próxima rodada. Nesse ponto, bastante similar com alguns live steel. A diferença é mesmo nos equipamentos usados, já que os custos são bem menores e as armas são menos perigosas. Por uma questão estética costuma ser deixada de fora do reenactment e independente do peso e formato de suas armas, é literalmente impossível usá-las como se fossem armas reais, impossibilitando, também, um entendimento dessas últimas através dessas reproduções. Mas, e tudo tem um mas, é uma coisa divertida se você não cair em alguns mitos que alguns maus praticantes criam pra se legitimar (como "armas com o mesmo balanço que a real", "prática similar à da esgrima histórica" e blablabla, ainda que conceitos de estratégia sejam, muitas vezes, reproduzíveis na Batalha Campal).

Tendo essas "modalidades" em mente, o que o reenactor deveria escolher? Muita gente responderia "HEMA" ou "live steel". A batalha campal pode ser aproveitada. Como você, mãe, pai, irmão mais velho preocupado vai permitir que seu filho de, digamos, 7 anos de idade pegue uma espada de aço, ainda que cega, pra bater noutra pessoa? Em casa é uma coisa, mas envolvendo gente desconhecida a coisa muda. Não que eu ache que BC seja para crianças, mas é o exemplo mais claro que penso no momento. É uma brincadeira de longe mais segura e mais barata e cumpre seu papel de estimular o imaginário e a vontade de, um dia, ir pra uma prática mais perigosa e abrangente. Dentro do recriacionismo histórico, é algo muito pouco aproveitado, mas com um potencial significativo se souberem usá-la.

Pra quem tem mais disciplina e tempo, a HEMA é uma boa escolha, ainda que exija muito de seus praticantes. Não dá pra decorar o nome de Lichtenauer e falar que ele tem qualquer material sobre escudo grande redondo, como já ouvi gente dizendo por aí pra dizer "treino luta viking". Ou ainda dizer que pratica uma arte marcial milenar cujo nome é o nome de uma academia alemã qualquer, só porque era o nome do vídeo no youtube. HEMA exige tempo de leitura e estudo, ou prática em alguma academia (que inexiste no Brasil). Mas nossa terra é cheia de especialistas em genética que não sabem o que é uma célula...

Live Steel é, de longe o mais fácil, embora não mais barato, a se fazer. Contextualizando bem, é a forma mais convincente e reveladora sobre quase qualquer período da história (ou você acha que, tirando aquela elite militar reduzida, muitas outras pessoas sabiam empunhar uma arma que não fosse uma ferramenta?). De qualquer forma, como disse, luta não é necessário, então se a vontade é se divertir com a luta enquanto leva o resto a sério, não há a menor obrigação de se tornar um artista marcial. Pra isso o Live Steel acaba sendo mais importante que uma prática estudada como a HEMA.

Quanto ao Stage Combat, bem, o reenactment envolve uma bela parcela de teatralidade. Pra certos públicos, um show fight é muito mais interessante que uma demonstração de mestria marcial. Além disso, evita alguns problema no caso de um resultado já determinado, como a recriação de algum duelo histórico conhecido onde você não quer acertar a cabeça do seu oponente e ele continuar de pé porque ele é quem te mata. O problema é que exige um bom tempo de ensaio e é praticamente impossível em combates de massa.

Bom, tendo tudo isso em mente... Qual o sentido de um perneta, por exemplo, lutar? Seria algo insalubre pra todos que estivessem na mesma luta. Isso quer dizer que o perneta não pode ser um reenactor? De modo algum.

A luta, tal como qualquer atividade, é apenas uma faceta do recriacionismo histórico. É uma faceta que chama muita atenção, de fato, mas que não é a mais importante que qualquer outra. E não há nenhum sentido em se esforçar para ser um bom reenactor e utilizar elmos e espadas importados com tênis nike. No máximo, você está mostrando uma luta e não um período e se é só para tal, não precisa de todo o resto da indumentária.

Em muitos países esse é um mal que já foi sanado com o tempo. Aqui, como somos pouco mais que um embrião, ainda vai algum tempo, mas até que estamos caminhando rápido (agradeçamos à internet, que não era presente nos anos 80 na Europa).

Por hora é isso.
Até semana que vem!

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Purismo: Revendo esse conceito.

Boa noite!

Semana passada eu cheguei a comentar sobre réplicas e eu também queria voltar ao tópico da autenticidade. Desculpem se eu parecer tautológico.

Certa vez recebi uma certa crítica por fundamentar o meu grupo, o Escudo dos Vales, em conceitos "muito puristas". Vendo pelo lado de um brasileiro tentando fazer alguma coisa voltada ao medievo no nosso país, esse argumento faz bastante sentido.

Querendo ou não, nossa visão de Idade Média é um esteriótipo de barbárie e regresso da humanidade que perdurou durante mil anos. Independente de alguém pensar num merovíngio do século V ou num cavaleiro templário do XIII ou mesmo num torneio de justas do século XV, tudo é "cultura medieval" (um termo por si só um bocado babaca). E as pessoas aqui tem a visão de que todas essas coisas aconteciam ao mesmo tempo. É meio estranho se pensar que há meros duzentos anos não havia nem energia elétrica sendo usada pelo homem e cá estou eu, digitando num computador, enquanto aqueles pobres sujeitos ficaram estagnados durante mil anos...

Eu poderia voltar no post sobre o recorte específico e dizer tudo aquilo de novo, mas não é a idéia desse tópico.

O que a maioria esmagadora dos recriacionistas mundo a fora fazem é uma aproxmação, digamos, grosseira da realidade. Por mais pesquisa que haja, por mais rigor e parâmetros que escolhamos seguir, nós prestamos atenção em outros detalhes, como custo, segurança, viabilidade técnica e tudo o mais.

Uma espada 100% autêntica, pra começar, deveria ser afiada e em muitos casos de um aço não muito confiável, dependendo do período recriado. Só sair com ela na rua já geraria problemas, desembainhá-la seria pior e eu nem entro no mérito de usá-la, por motivos óbvios.

Um escudo quebraria rápido de mais e o gasto para repô-lo seria insustentável. Uma cota de malha feita com argolas rebitadas exigiria meses de trabalho contínuo e nosso tempo não permite isso. Fazer aço em casa à partir de minério exigiria um suprimento considerável de carvão e um espaço invejável - e sem vizinhos - ... E só pra colocar a cereja no bolo, metais preciosos são ainda mais preciosos nos dias de hoje.

Falando por fim das réplicas, há recriacionistas mais abastados que só utilizam estas. Há uma certa "corrente" entre os reenactors que opta por isso. Afinal, utilizando réplicas de um determinado lugar e tempo, simplesmente elimina-se muito do falatório. O que poderia ser mais autêntico que um "set" inteiramente recriado dos equipamentos do barco funerário de Sutton Hoo para um "rei/chefe saxão do século VII" além dos próprios artefatos restaurados?

Há algumas pessoas engajadas na produção de réplicas fiéis ou com poucas modificações (mais no tocante a matéria prima empregada) e estes ganham cada vem mais destaque no mercado do recriacionismo "de luxo", principalmente na Europa. O motivo é que além de preços altos que geram certa exclusividade, há o fator da qualidade: um cara que tem acesso aos originais em museus e tem um público que paga bem, obviamente tem mais tempo para estudar suas peças mais a fundo e fazer trabalhos cada vez melhores. Suas peças se tornam objeto de desejo entre colecionadores e mesmo instituições que enxergam no reenactment um meio de promover suas atividades (como museus, universidades, etc...)

Apesar de necessária para uma "legitimação" do reenactment como prática educativa e séria, obviamente não há a necessidade de que todos os reenactors ajam desta forma, se apegando a réplicas 100% fieis às originais.

Ou seja, num geral a recriação da maioria das pessoas não tem nada de purismo, se formos analisar essas pessoas de grana que utilizam peças folheadas a prata e ouro, espadas com pattern-welding/bloom steel (quando não um pattern-welding COM bloom steel), detalhes em osso de baleia e tudo o mais.

Acontece que sempre há outro lado...

Dizer isso tudo pode parecer um incentivo ao uso incorreto de materiais e coisa e tal. Por isso volto aos posts anteriores sobre recorte e autenticidade ou mesmo o último post, sobre os insumos disponíveis aos recriacionistas.

Para sintetizá-los: a pesquisa é altamente necessária para evitar anacronismos, mesmo que se invente algo que nunca existiu de fato.

Para ilustrar o parágrafo anterior da forma que acho mais clara no momento, volto a pensar num futuro reenactment de nossa era: pense em alguém querendo "construir" um carro típico dos últimos anos do século XX. Através das evidências ele vai saber o tipo de tecnologia e configurações usadas na mecânica, o design arredondado convencional e algumas marcas. Com isso ele poderia criar um Peugeot com um motor Volks (pois isso passaria desapercebido para a grande maioria de nossos contemporâneos), mas com o tradicional aspecto "felino" dos carros da Peugeot, ainda que inventado. Ele poderia colocar o estofamento com pele de jacaré se quisesse, pois sabe que isso é bastante customizável, com painel de plástico, ponteiros analógicos, cinco marchas e tudo o mais. Caso, hoje, víssemos tal carro, ele não nos pareceria estranho em nada. Isso é ser conjectural, mas autêntico.

Se o mesmo recriacionista criasse um carro com a mesma aparência felina com um emblema da jeep, nós estranharíamos. Mais ainda se o motor fosse um V8 num carro de aspecto popular. E se além disso tivesse traços quadrados e redondos ao mesmo tempo, nós veríamos um carro sem a harmonia típica deste período. Este recriacionista seria, portanto, um cara sem estudo profundo desse nosso tempo.

Um purista de fato, no entanto, iria pegar o Peugeot pronto, customizar o possível (como o estofamento interno, a cor, as calotas, insulfilm...) e deixaria toda a estrutura idêntica à de um original, embora talvez mudasse alguns tamanhos e proporções que, para nós, pareceria normal.

A diferença entre o segundo exemplo e os outros é óbvia, pois é alguém sem estudo e sem conhecimento que simplesmente cria o que lhe dá na teia parcamente baseado no período em questão. A diferença do primeiro para o terceiro é de que o primeiro, muitas vezes, precisa de uma base teórica bem maior do que a do último, uma vez que deve saber exatamente o porquê de cada detalhe de uma porrada de originais para criar um objeto inteiramente novo que pareça verossímil, enquanto o outro pode se permitir se focar e se especializar num único modelo e ninguém poderá dizer que ele não é autêntico.

Cada um tem vantagens e desvantagens: O carro inventado, infelizmente, nunca pertenceu ao nosso tempo, enquanto o carro refeito tende a criar uma padronização entre todos os "reenactors do futuro", coisa que não é algo que realmente existe em nosso tempo (digo todos tendo um Peugeot na garagem).

Logo, os dois são lados de uma mesma moeda. Todo o post pra ilustrar que o estudo do aficcionado é o que dá a liberdade ao recriacionista para inventar dentro de uma gama enorme de possibilidades e a única chance de realmente "entrar" na "mentalidade" da época, sentir o tal do zeitgeist, enquanto a replicação é a chave para alcançarmos uma aproximação maior com uma especificidade única e 99% segura dentro de um todo bem mais amplo. Uma se faz necessária da outra.

Enquanto isso o desconhecimento e desinformação devem ser deixados de lado, pois eles não nos aproximam do passado, apenas reforçam os esteriótipos, que geralmente são equivocados. Como a velha história de espadas de 10kg, vikings usando machados de duas lâminas, martelos de guerra como aqueles de jogos de RPG... E por aí vai...

Até a próxima semana.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A falta de insumos no Brasil

Boa noite a todos!

O tópico abordado hoje se atém à minha área de interesse (idade antiga, tardo-antiga, medieval e até certo ponto na renascença), embora acredito que para outros períodos a situação não seja tão diferente.

Por insumos, me refiro ao mercado disponível para o recriacionista, ou seja, o que há de oferta nacional para construirmos nossa recriação.

Há um mito popular entre alguns de que o reenactor faz todas as suas coisas ou que ele deve se esforçar para tal. Balela. Assim como trabalhar pode ser parte do reenactment, comprar também pode. O comércio é uma das atividades mais antigas do Homo sapiens.

Porém, onde e de quem comprar?

Essa pergunta é o grande tormento dos recriacionistas brasileiros. Infelizmente nosso país carece, muuuuuito, de produtos de qualidade para este tipo de público. A maioria esmagadora dos artigos medievalescos aqui são voltado ao público fantástico, não um público que busca autenticidade. Notem que não estou colocando defeito nesses artigos nem dizendo que são ruins, muitos são belíssimos e extremamente bem confeccionados, mas fantasiosos.

Industrialmente, obviamente, não temos nada. Portanto, como a maioria dos que vendem vendem produtos artesanais, há uma grande chance de customização, o que permite que haja autenticidade.

Um desses vendedores/artesãos é o responsável pela Hersir Store que além de ter uma produção em couro com a mesma qualidade da que temos no exterior, também importa outros artigos de lojas especializadas lá de fora. Além dele, temos algumas pessoas que trabalham com artigos especializados como sapatos de época, roupas e alguns acessórios, ainda que a maioria desses pouquíssimos faça mais para uso particular.

Só devemos ficar atentos com alguns artesãos que "se intrometem de mais" nos nossos projetos e inventam coisas que apesar de ter uma inspiração histórica, tendem pro lado da imaginação sem mais nem menos, tornando-se um gasto inútil de dinheiro.

E falando em gasto inútil, o maior gasto ao se fazer recriacionismo histórico de qualquer período que envolva beligerância, sem dúvidas se encontra nas armas e equipamentos de proteção. Gasto inútil não pelas armas, mas pelas porcarias que existem no mercado. Apesar da febre das cotas de malha, que são bastante presentes até no Mercado Livre, armas ou mesmo armaduras feitas com placas/chapas são raras. Neste último caso, temos alguns artesãos, como eu mesmo (merchand pessoal não é crime), a Guilda dos Armoreiros e o Giuliano Armaduras. Já tive o (des)prazer de encontrar alguns outros que vendem "proteção e durabilidade" com chapas com menos de 0,5mm (o suficiente para te proteger, talvez, da chuva, mas não mais que isso).

Há também o problema de "réplicas" que não são em nada iguais às originais, tirando um traço ou dois, sendo que uma réplica deve, pelo menos, ter proporções e formas similares à original, mas isso é um assunto para outro tópico.

Quanto à vilã dos bolsos (de forma absoluta e não só para o reenactment, mas também para a esgrima ou HEMA), de forma categórica, hoje, agosto de 2013, afirmo que não há no mercado nacional quem produza boas espadas a preços acessíveis. Ponto.

Referente a este parágrafo anterior, faço algumas considerações: Há boas espadas SIM e também há espadas a preços acessíveis. Os dois juntos, anda bastante difícil. Eu sou cuteleiro, inclusive já fiz três espadas e tirando uma delas, que foi uma espada curta e como tal demandou muito menos trabalho do que uma longa, ficaram uns belos lixos. A última inclusive quebrou no último sábado graças a um problema de revenimento.

Recentemente tenho visto alguns "espadeiros" fazendo cocôs de ferro e alegando serem armas. Como espadas são ótimos tacapes. Há um ferreiro por aí que se orgulha por suas espadas pesarem absurdos dois quilos (espadas de um determinado tipo que deveriam pesar em torno de 900-1200g). Há outros que utilizam aço 1020 (um material comumente encontrado em ferro velho, com baixo teor de carbono) e dizem que a lâmina é "real". Nem mesmo alguns que utilizam a famosa "mola de kombi" são realmente confiáveis, porque apesar da qualidade do aço, é o tratamento térmico que determina a qualidade da espada pronta. Eu utilizo o mesmo aço dessas molas milagrosas (embora eu os compre virgem e não reciclado, de fato, de um kombi) e veja só, a espada quebrou porque inventei de fazê-la sem as devidas ferramentas.

Espadas, para serem feitas, exigem uma infraestrutura e um conhecimento de siderurgia muito mais avançados do que para se fazer simples facas. E quem possui esse conhecimento e ferramental com toda a certeza não fará uma peça por um preço qualquer, a menos que tenha a condição de fazê-las de forma "semi-industrial" ou algo assim, coisa que poucos cuteleiros profissionais tem interesse em fazer. No Brasil, nenhum que eu conheça. No exterior há um cara chamado Paul Binns, que faz lâminas baratíssimas para os padrões de quem recebe em libras, ao mesmo tempo que faz lâminas caríssimas "artesanais".

O problema com cuteleiros profissionais é que, apesar de conhecerem a siderurgia, terem ferramental e algum embasamento, poucas vezes eles entendem sobre espadas no Brasil. Quando entendem é de um ou outro tipo muito particulares e mais "vendíveis". E geralmente fazem peças mais pesadas e desbalanceadas do que deveriam, apesar de lindas e afiadas.

Sendo assim, por hora, nos resta importar, sujeitos a variação do dólar, taxas abusivas de importação e impostos inventados a bel prazer dos órgãos responsáveis, já que ainda assim é melhor do que comprar espadas de trezentos reais feitas em ferro comum e sem têmpera...

Por outro lado, dois anos atrás não tínhamos nem mesmo isso. E de lá pra cá surgiram excelentes profissionais. Isolados, mas fiéis à pesquisa histórica. O cenário é de otimismo. Quem sabe em breve não teremos um bom mercado em nosso país?

Enfim, até a semana.