quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A falácia das técnicas de combate com facas na Era Viking.

Boa noite a todos e espero que estejam tendo um excelente início de ano. Porém, como nem tudo são flores, eu vou escrever um texto sobre um assunto que tem me incomodado um pouco recentemente. E um texto que vai incomodar muitos dos mais sensíveis.

Não é incomum que quando começamos a frequentar treinos de um grupo de reenactment mais voltado para o combate, ou mesmo algum que apenas lute eventualmente, nós vemos pessoas treinando com armas mais comuns e mais baratas. É natural que assim seja uma vez que é mais fácil você ver grupos com muitos machados e facas do que espadas. E no caso do reenactment viking virou uma trend os grupos iniciarem os treinos com tocos de madeira imitando saxes e langsaxes/longseaxes justamente pela disponibilidade e segurança da coisa.

Porém, apesar de isso ser um pouco incômodo, não é o maior problema. E conversando com meu amigo F. Breda, líder do grupo de recriacionismo do período Anglo-Saxão Inglês Beorningas, do interior de São Paulo, meio que mapeamos o real perigo disso: quando afirmam que são técnicas de combate com saxes, usadas pelos vikings/saxões e quem mais quer que eles digam nesse momento.

A verdade é que muita gente traz bagagens de diversas artes marciais na hora de desenvolver um sistema de combate com facas. Entre as mais comuns o Systema/Sistema, Kali Silat, Krav Maga, Ninjutsu ou outras usadas principalmente em exercícios militares. E essa bagagem nada tem a ver com como os nórdicos (ou outros povos) encaravam o combate com essas armas.

A aproximação mais racional que podemos pensar de como essas lutas eram feitas é pensar nos manuais italianos ou alemães dos séculos XV ou XVI sobre duelos de adagas, mas eu jajá explico o porque isso seria um erro. De qualquer modo, os mestres do século XVI estão para os "vikings" (vou usar o termo aqui algumas vezes pra localizar você, leitor, no tempo e região da Era Viking, não me referindo apenas aos escandinavos saqueando de navio por aí, ok?) assim como nós estamos para os mestres do século XVI, ou seja, tem uma barreira de pelo menos 500 anos aí. Que por sinal é quase a mesma que divide o final da Era Viking do começo do Período Saxão Britânico e do Volkerwanderung.

Bem, agora vamos fazer um exercício de brainstorm. Na maioria, as lutas modernas de combate com facas tem por finalidade a defesa pessoal, certo? E num geral você acaba aprendendo a reação através da repetição e de um treino com uma metodologia específica. No grosso: você observa um professor/instrutor, você se coloca no lugar do atacante, você faz o golpe várias vezes, você decora, você aprende. Fica automático. E não, eu não estou questionando a validade disso, funciona, nos exércitos funciona, isso é útil porque tem aplicação prática, porque você não toma a decisão, seu corpo já sabe o que fazer antes que você se coloque numa situação de risco. Mas... Qual era a função disso no século X?

"Defesa pessoal, claro!" Não! E por que não? Vamos lá:

Você aprende isso em defesa pessoal no século XXI porque você parte do princípio de que alguém vai te atacar com uma faca na rua. Porque existe em geral uma proibição ou restrição, dependendo do país, ao porte de armas de fogo e então é mais fácil trombar com alguém armado com uma butterfly ou um canivete do que com um revólver, por exemplo. Embora, claro, no Brasil a regra pode ser diferente dependendo do estado. O fato é que você se prepara, no caso de praticar essas artes marciais, pra esse tipo de situação. E não estou falando dos treinos e técnicas pra armas de fogo porque obviamente elas não estavam por aí no período que o blog se propõe a ilustrar.

De qualquer modo, você espera poder ver o seu atacante e você espera estar em uma distância em que seja possível usar as técnicas de combate com facas, seja você a pessoa armada ou o outro. Se você tira esses dois fatores, você pode ter sua faca AK47 que ela não vai fazer efeito nenhum. Meio óbvio.

Agora pense bem nesses últimos dois parágrafos. Aposto que se imaginou andando na rua de madrugada e percebe que tem alguém te seguindo. Ou viu alguém suspeito de longe, ou viu alguém fazendo alguma coisa suspeita e colocou a mão no bolso, onde está seu canivete, ou no caso de um militar no meio da guerra da Síria, você se imaginou ficando sem munição ou enfrentando alguém sem munição ou querendo causar uma baixa oportuna sem revelar sua posição. Ou ainda uma briga de bar ou um sequestro onde alguém dominou o outro com uma faca na garganta. Não sei, podem ter imaginado muita coisa.

Mas nenhuma dessas realidades é a regra pra Era Viking.

Primeiro que você não pensa em cidade da forma como nós as pensamos hoje. Segundo porque fora delas você pode andar com armas muito mais efetivas e que não são difíceis de se arrumar. Terceiro porque você não tinha tempo ou posição social pra fazer o que bem entendesse. E essa terceira é pesada, mas é real.

Vamos lá, imagine um centro comercial. Uma cidade, claro, mas não como as nossas hoje em dia, a menos que estivesse falando de Roma ou Constantinopla e mesmo assim, não. Mas pense em Hedeby em seu apogeu. Ou Birka. Existe um chefe local, um jarl ou mesmo um rei tomando conta do lugar. E ele não quer o lugar saindo do controle e nem quer perder os visitantes com notícias de que o lugar é violento. Porque ele lucra com o comércio ali. Ele vai ter homens armados andando por ali, tipo cena de filme, fazendo rondas, mantendo a ordem, via violência mesmo. E sem facas, vai ter é nego de machados, escudos, cotas de malha provavelmente, talvez espadas e principalmente lanças e arcos. E olha só, não vão andar sozinhos. Então combate de facas contra dois ou mais homens armados com coisas que mantém a distância com certeza não vai funcionar bem.

"Ah, mas você pode chegar por trás e cortar a gargante de um deles antes do outro ter uma reação." Se você é do tipo que adora Assassin's Creed, você pode se perguntar sobre isso e sim, você pode, mas não existe muita técnica necessária pra degolar alguém na surdina. Nem pra dar uns backstabs.

Além disso as cidades, como já falei, não eram como hoje. As pessoas viam as coisas. Não tinha no norte da Europa essa ideia de becos escuros no século X. E a maioria dos vikings não viajava pra Constantinopla toda semana pra precisar tanto assim aprender a se defender em becos, porque se eles iam prum beco com certeza estariam com mais algumas pessoas do lado.

Então a necessidade do combate com saxes em realidades urbanas não existia. Pra que você ensina um cachorro a apertar o botão do elevador se você mora num sítio sem elevador?

Agora em situações em lugares menores. Vilarejos ou estradas.

Numa vila pequena você pode usar um sax pra se defender de animais selvagens. Você não precisa desenvolver uma arte marcial pra isso, porque, né... Mas você pode usar pra impedir ser estuprada pelos homens do chefe local. Que estão armados com outras armas, com armaduras, em maior número, que passaram a vida inteira treinando o uso com essas outras armas e que, caso morram todas nas suas mãos ninjas, vão ser notados e alguém vai te caçar com cães farejadores (bem comuns naquela época) e vão te matar. Significa que acho que as mulheres sozinhas deviam ficar quietas e aceitar? Não, só digo que o mundo era diferente e tinha outras regras em vigor.

Mas você podia usar uma faca pra se defender de outras pessoas, claro, mas num geral elas também não sabiam combate com facas, porque era uma habilidade sem sentido quando podem lutar com rastelos, machados e panelas com água fervendo, então seria como dois militares de mesmo nível em artes marciais lutando. Só que menos aprazível de se ver.

Percebem? Você tinha várias coisas mais ameaçadoras do que facas sempre a mão nesses lugares ou uma faca não faria nenhuma diferença contra outras pessoas, assim como uma espada de uma mão não vai ser muito útil contra um urso emputecido.

Mas pense numa estrada. Um assalto! É, ninguém vai sair de uma estrada com uma faca na mão na calada da noite e anunciar ou falar "perdeu" ou "fica quieto", porque ninguém vai ouvir mesmo. Assaltantes, sobretudo durante a Idade Média, tem por característica básica serem rápidos e desleais. Covarde pode ser uma palavra. Eles ficariam sobre as árvores com arcos e flechas, bloqueariam a estrada com troncos e pedras e só atacariam se estivessem em maior número com certeza de sucesso usando surpresa. Não sei se visualizou a cena, mas um sax não faz muita diferença nesse cenário.

Num navio também não, porque você geralmente vai ter muitos outros elementos ao redor e ainda que só tivessem duas pessoas a bordo, pegar um remo e derrubar o outro seria muito mais inteligente.

E por fim, a batalha!

Pois é, langsaxes provavelmente eram usados em batalha. Você tem um monte de gente grudada se empurrando contra um outro exército, você não consegue mexer muito seu braço e um facão bem pontudo é a melhor coisa que vem na sua mente por baixo do seu escudo. Ou você tem um sax desembainhado na mão do escudo enquanto luta com outra arma na outra mão. Perfeito. Parece funcional? E é!

"Aí, meu, então combate com facas é útil pra reenactors!" Erm... Não vá tão longe assim.

As pessoas treinam duelos de um contra um, armados com nada além de saxes (ou pedaços de madeira) iguais, sem distrações externas. Isso soa como uma batalha pra você? Assista o episódio "A Batalha dos Bastardos" do Game of Thrones pra entender o que é uma batalha. Ou assista Henry V. Ou simplesmente faça uma shieldwall no final de semana com seu grupo e os grupos mais próximos pra você ver que não existe essa coisa de duelo de honra quando você coloca uns vinte marmanjos armados querendo matar uns aos outros. Assista uma final de buhurt no Battle of the Nations pra ter uma noção. Não, amigos, não faz sentido você aplicar golpes de jiu jitsu no meio duma situação onde o amigo do seu oponente pode simplesmente pisar na sua cabeça ou apontar uma lança pra você largar.

Tem um outro detalhe sobre as bainhas dos saxes. Justamente por conta de tudo isso, você não precisava de uma bainha de kydex ou PVC de saque rápido. Uma vez o A. Pessoa do Haglaz comentou sobre a bainha manter o gume pra cima na grande maioria dos saxes e achava isso estranho. O sax nunca foi uma arma de saque rápido. A bainha serve pro transporte, mas se você precisar sacar o sax numa batalha aberta, você morria porque tinham armas muito mais apropriadas pra isso. E se você pretendesse entrar numa batalha onde uma faca de 40cm precisasse ser usada além de uma espada, machado ou lança, você já entraria com ela desembainhada.

Bom, aí alguém me pergunta sobre os manuais de esgrima da Renascença.

Primeiramente eles são da Renascença, quando havia cidades propriamente ditas. Depois eles mostram duelos, que era uma prática comum pra disputas legais. Era como ter um bom advogado, mas ele cortava. Terceiro que eram adagas na maioria das vezes e elas funcionam de uma forma bem diferente do que um sax. Quarto que ambos usam as mesmas armas. E quinto, não esperava que pessoas andassem por aí usando lanças ou rastelos como bastões de caminhada.

Além disso, o mais próximo de um sax seria um dussack/tessak, não uma adaga e mesmo assim, as situações acima mencionadas são as mesmas.

"Então quer dizer que não se usava uma faca enorme como arma?" Bom, eu já disse que se usava e muito e em muitas situações, mas o ponto desse texto é excluir das nossas cabeças os sistemas de combate com facas. Que não cabiam no contexto deles, com escudos, lanças, machados e outras coisas do gênero. Seria o mesmo que você se defender com um estilete gasto com vários gominhos já arrancados. É possível, é funcional, mas é tão variável e não padronizado que você tem que improvisar, porque um sistema estabelecido vai deixar mais buracos do que ele consegue tapar.

Então, parem de dizer que os vikings lutavam com facas como membros de forças especiais, porque eles não faziam isso. E o treino de artes marciais modernas no reenactment é anacrônico.

Mas não estou dizendo que é errado e que tem que parar de fazer, pode ser uma coisa divertida, lúdica, pode ser uma atividade física, você pode treinar com seu grupo pretendendo usar aquilo pro dia a dia (afinal, mesmo sem usar numa luta de recriação, você pode usar na vida aqui fora). Mas não pode é dizer que vikings lutavam Kali Silat e nem acreditar que eles tinham sistemas padronizados de ensino de artes marciais. Isso é bobagem, ingenuidade ou agir de má fé.

Enfim, espero que entendam os pontos aqui expostos.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Armadura lamelar na Escandinávia Viking


Reconstrução de um guerreiro de Birka. Hjardar -Vike 2011: pág. 347.
Traduzido por: Stephany Palos e
Hrafnar.
Essa é uma tradução autorizada de umartigo publicado por Tomáš Vlasatý, colega historiador e recriacionista histórico da República Tcheca do projeto Forlǫg, sobre o uso da armadura lamelar na Escandinávia durante a Era Viking, especialmente durante os séculos X e XI d.C. Se você gostou deste artigo, você pode apoiar o autor no site Patreon.
A questão da armadura lamelar é popular entre os especialistas e entre os reencenadores, tanto os veteranos quanto para os mais leigos. Eu mesmo lidei com essa questão várias vezes o que me levou a muitas descobertas, praticamente desconhecidas, desde o Snäckgärde de Visby à Gotland, que não sobreviveram, mas são descritas pelo padre Nils Johan Ekdahl (1799-1870), que pode ser chamado de “O primeiro arqueólogo cientifico de Gotland”.
As conclusões do Snäckgärde, em particular, são desconhecidas, e foram encontrados a menos de 200 anos atrás e assim como também foram perdidas. A literatura que escreve sobre este tema é pouco acessível, e os estudiosos sobre o assunto que não são suecos, dificilmente o conhecem ou tem acesso a ele. Tudo o que eu consegui descobrir é que no ano de 1826, foram examinadas 4 sepulturas com esqueletos na localidade de Snäckgärde (Visby, Land Nord, SHM 484), e o mais interessante dessas 4 sepulturas, estão nas sepulturas 2 e 4 (Carlson 1988: 245; Thunmark-Nylén 2006: 318)
Sepultura nº 2: sepultura com esqueleto voltado para a direção Sul-Norte, acompanhado por algumas pedras esféricas. O equipamento funerário consistia de um machado de ferro, um anel localizado na cintura, dois grânulos opacos na área do pescoço e “algumas peças de armadura sobre o peito” (något fanns kvar and pansaret på bröstet).
Sepultura nº 4: sepultura com esqueleto orientado na direção Oeste-Leste, túmulo esférico com altura de 0,9m e afundado ao topo. Dentro encontra-se um caixão de pedra calcaria, medindo 3m×3m. Foi encontrado uma fivela no ombro direito do corpo. No nível da cintura, foi encontrado um anel do seu cinto. Outra parte do equipamento consistia em um machado e “várias escamas de armadura” (några pansarfjäll), encontrada em seu peito.
A julgar pelos restos funerários, pode-se supor que as sepulturas correspondem a dois homens que foram enterrados com armadura. Claro, não podemos dizer com certeza que tipo de armadura era, mas parece ser uma armadura lamelar, sobretudo pelas analogias que apresentam com outros achados (Thunmark-Nylén 2006: 318). Data-los é algo problemático. Lena Thunmark-Nylén tentou fazer em suas publicações sobre a Gotland viking. Nelas, datam as sepulturas como pertencentes a Era Viking, devido as características das fivelas e dos cintos. No entanto, os resultados que parecem ser mais importantes para esta questão, são os machados. Principalmente o que foi encontrado na sepultura número 2 (jugando pelos desenhos de Ekdahl, que parece ser um machado de duas mãos danes), foi datado a partir do final do século X d.C. ou início do século XI d.C. (ver http://sagy.vikingove.cz/nekolik-poznamek-k-pouzivani-sirokych-seker/).
O que era pertencente a sepultura número 4, estava recoberta de bronze. Ambos os recursos dos machados são similares a outros exemplares do século XI d.C., por isso, podemos supor que as sepulturas pertencem a este mesmo período, apesar de que há algumas variações na estrutura e orientação das tumbas (ver  http://sagy.vikingove.cz/hrob-langeid-8/).

Salão com os achados de anéis e outras peças das armaduras lamelares. Retirado de Ehlton 2003:16, Fig. 18, Criado por Kjell Persson.
As lamelas estavam espalhadas em volta do chamado Garrison (Garrison/Garnison) e eles numeraram 720 peças (a maior parte continha a partir de 12 peças). 267 lamelas poderiam ser analisadas e classificadas em 12 tipos, o que provavelmente serviu para proteger partes diferentes do corpo. Estima-se que a armadura de Birka protegia o peito, costas, ombros, barriga e pernas até os joelhos (Stjerna 2004: 31). A armadura foi datada da primeira metade do século X (Stjerna 2004: 31). Os estudiosos concordam que a lamelar é nômade, com origem no Oriente Médio, próximo a Balyk-Sook (exemplo retirado de Dawson 2002;Gorelik 2002: 145; Stjerna 2004: 31). Stjerna (2007: 247) pensa que a armadura e outros excelentes objetos não foram designados para a guerra, e eram muito simbólicos (“A razão para se ter tais armaduras, foi certamente outra que não militar ou prática“). Dawson (2013) está parcialmente em oposição e afirma que a armadura foi erroneamente interpretada, pois apenas três tipos de oito poderiam ser lamelares, e o número de lamelas reais não é o suficiente para meio peitoral da armadura. A conclusão dele é que as lamelas de Birka são somente pedaços de sucata reciclada. Na luz das armaduras de Snäckgärde, que não estão incluídos no livro de Dawson, eu particularmente, considero esta afirmação muito precipitada.
Reconstituição da armadura de Birka, baseada na armadura de Balyk-Sook. Retirado de Hjardar –Vike 2011: 195.
As pessoas muitas vezes pensam que há muitos achados na área da antiga Rússia. Na verdade, existem apenas alguns achados do período que consiste entre o século IX ao XI, que pode ser interpretado como importações do Leste, assim como o exemplo de Birka (conversa pessoal com Sergei Kainov; ver Kirpicnikov 1971: 14-20). A partir deste período inicial, os achados vêm do exemplo de Gnezdovo e Novgorod. O material russo deste tipo, datado entre os séculos XI e XIII d.C., é muito mais abundante, incluindo aproximadamente 270 achados (ver Medvedev 1959Kirpicnikov 1971: 14-20) sendo importante notar que desde a segunda metade do século XIII d.C., os números de fragmentos de argolas de cota de malha são quatro vezes maior que lamelas de armaduras lamelares, apontando que a malha era o tipo predominante de armadura no antigo território russo (Kirpicnikov 1971: 15). Com grande probabilidade, a armadura lamelar da antiga Rússia da Era Viking, vem do Bizâncio, onde era muito dominante, graças ao seu design simples e ao baixo custo de produção, já no século X (Bugarski 2005: 171).
Nota para os reencenadores
A armadura lamelar tornou-se muito popular entre os reencenadores históricos. Tanto que em alguns festivais e eventos com batalhas, as armaduras lamelares constituem de 50% (ou mais) do que outros tipos de armadura. Os principais argumentos para o uso são:
  • Baixo custo de produção
  • Mais resistente
  • Produção rápida
  • Parece ser mais legal
Embora estes argumentos sejam compreensíveis, eles permanecem totalmente inadequados. Para contrariar tais argumentos não é correta na reencenação histórica dos nórdicos da Era Viking. O argumento de que este tipo de armadura foi utilizado pelos Rus, pode ser contrariada, mesmo em tempos de maior expansão das lamelares na Rússia, o número de armaduras de malha de metal (cotas de malha), quadriplicou, além de que a primeira citada (armadura lamelar), eram importadas do Oriente. Se mantivermos a ideia básica que a recriação histórica deve-se basear-se na reconstrução de objetos típicos, então nos deve ficar claro que a armadura lamelar é adequada apenas para recriação de guerreiros nômades e bizantinos. Obviamente, o mesmo se aplica a armadura lamelar de couro.
Um bom exemplo de armadura lamelar, Viktor Kralin.
Por outro lado, os achados de Birka e Snäckgärde sugerem que na região oriental da Escandinávia poderia haver uma recepção deste tipo de armadura. Mas antes de qualquer conclusão, temos que levar em consideração que Birka e Gotland tinham um fluxo grande, frequentemente visitadas por comerciantes de uma longa distância e outras grandes massas de pessoas, provenientes em particular da Europa Oriental e Bizâncio, assim como tinha uma grande influência nestes locais. Esta, também é a razão, para a acumulação de artefatos de proveniência oriental, que não eram encontrados na Escandinávia. De certo modo, é estranho que não foram realizados mais achados similares nestas áreas, especialmente correspondentes ao período do domínio bizantino. Mas isto não quer dizer que as armaduras lamelares foram frequentes nesta área, pelo contrário, este tipo de armadura se encontra quase isolado de qualquer tradição guerreira nórdica. Por outro lado, a armadura de malha, como na antiga Rússia, pode ser identificada como a forma de armadura predominante na Escandinávia durante a Era Viking. Isso pode ser verificado pelo fato de que os anéis de cota de malha, em si, foram encontrados em Birka (Ehlton 2003). Com respeito a produção da armadura lamelar no território escandinavo e russo, não existe nenhuma evidencia que demonstre que isso acontecia.
Para incluir a armadura lamelar no recriacionismo histórico, deve-se cumprir:
  • Unicamente fazer reconstrução das regiões do Báltico e Rússia.
  • Permitir um uso limitado (por exemplo, uma armadura por grupo ou um por cada quatro pessoas com cota de malha).
  • Somente utilizar as lamelas de metal. Nada de couro.
  • As formas das peças utilizadas devem corresponder com os achados de Birka (em alguns casos são vistos alguns modelos de Visby, sendo isto um grande erro).
  • Não combinar com elementos escandinavos (fivelas, cintos, roupas, etc.)
  • A armadura deve ser semelhante a original e deve estar acompanhada das demais partes do traje.
Se estamos agora em um debate entre as duas posições: “SIM, usar a armadura lamelar” ou “NÃO, não se deve usar a armadura lamelar”, ignorando a possibilidade de “ sim ao uso da armadura lamelar (mas com os argumentos mencionados) ”, eu escolheria a opção “sem armadura lamelar”. E o que você acha?
Bibliografia
Bugarski, Ivan (2005). A contribution to the study of lamellar armors. In: Starinar 55, 161-179. Online: http://www.doiserbia.nb.rs/img/doi/0350-0241/2005/0350-02410555161B.pdf.
Carlsson, Anders (1988). Penannular brooches from Viking Period Gotland, Stockholm.
Ehlton, Fredrik (2003). Ringväv från Birkas garnison , Stockholm. Online: http://www.erikds.com/pdf/tmrs_pdf_19.pdf.
Dawson, Timothy (2002). Suntagma Hoplôn: The Equipment of Regular Byzantine Troops, c. 950 to c. 1204. In: D. Nicolle (ed.). Companion to Medieval Arms and Armour , Woodbridge, 81-90.
Dawson, Timothy (2013). Armour Never Wearies : Scale and Lamellar Armour in the West, from the Bronze Age to the 19th Century, Stroud.
Gorelik, Michael (2002). Arms and armour in south-eastern Europe in the second half of the first millennium AD. In: D. Nicolle (ed.). Companion to Medieval Arms and Armour, Woodbridge, 127-147.
Hedenstierna-Jonson, Charlotte (2006). The Birka Warrior – the material culture of a martial society, Stockholm. Online: http://su.diva-portal.org/smash/get/diva2:189759/FULLTEXT01.pdf.
Kirpicnikov, Anatolij N. (1971). Древнерусское оружие. Вып. 3. Доспех, комплекс боевых средств IX—XIII вв, Moskva.
Medvedev, Аlexandr F. (1959) К истории пластинчатого доспеха на Руси //Советская археология, № 2, 119-134. Online:http://swordmaster.org/2010/05/10/af-medvedev-k-istorii-plastinchatogo-dospexa-na.html.
Stjerna, Niklas (2001). Birkas krigare och deras utrustning. In: Michael Olausson (ed.). Birkas krigare, Stockholm, 39–45.
Stjerna, Niklas (2004). En stäppnomadisk rustning från Birka. In: Fornvännen 99:1, 28-32. Online:http://samla.raa.se/xmlui/bitstream/handle/raa/3065/2004_027.pdf?sequence=1.
Stjerna, Niklas. (2007). Viking-age seaxes in Uppland and Västmanland : craft production and eastern connections. In: U. Fransson (ed). Cultural interaction between east and west, Stockholm, 243-249.
Thunmark-Nylén, Lena (2006). Die Wikingerzeit Gotlands III: 1–2 : Text, Stockholm.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Final de temporada e insights para as próximas atividades.

Estava demorando pra escrever esse post. Embora a demora foi bem aproveitada, afinal. E ao invés de uma coisa mais aberta e vaga sobre conceitos, hoje vou falar sobre experiências pessoais e percepções de grupo, ou limitações da nossa época.

A "Temporada" é como eu chamei o período de julho até o final de setembro deste ano de 2016. Foi a época de todo esse meu período no reenactment em que eu mais recriei ou tentei recriar o passado. Obviamente muito longe do que eu gostaria, mas foi um bom "recomeço". Deixo claro, porém, que não estou colocando defeitos nas tentativas ao dizer que estão longe do ideal e assim como o primeiro desenho de Da Vinci certamente não foi lá essas coisas, foi fundamental para que ele se tornasse quem se tornou.

No Brasil, como bem sabemos, não temos ainda uma cultura da coisa (por mais que a coisa esteja mudando como falei nos últimos posts) e ainda vão alguns bons anos ou até umas décadas pra podermos ter uma prática melhor da recriação histórica focada na idade média. Mas é normal, e é bom que erremos e erremos de novo e de novo para aprendermos com nossos erros de verdade. Só a experiência traz a verdadeira sabedoria, como ouvi uma vez e isso é fato. Não importa quantos gringos venham aqui e nos falem "é assim que se faz", nós provavelmente iremos deixar algo passar e vamos descobrir da pior maneira, porque eles não estão nos dizendo como NÃO fazer. Então temos que tentar até que a coisa fique redonda, mesmo sabendo que não vai ficar por algum tempo.

Então, com essa ideia em mente, eu sai visitando alguns eventos, amigos e lugares para tentar ter essa vivência com ou sem o meu grupo pra que consigamos um dia conversar com os outros grupos ao redor e dividir experiências que deram certo e, principalmente, que deram errado.

Comecei "A Temporada" visitando os amigos do Hvíti Drekinn, no interior de São Paulo. Tínhamos um pequeno evento fechado entre nossos grupos, mas no final fizemos o que pudíamos com apenas três pessoas. E isso é uma coisa importante para todo reenactor que quer fazer a coisa andar: faça mesmo que esteja sozinho, que vai aprender do mesmo jeito.

Montamos uma tenda, fizemos uma fogueira e preparamos a refeição. Conversamos sobre a atividade em si, sobre a montagem do "acampamento" e deu pra pensar em coisas como logística, ócio e sobre maneiras adequadas se se proteger do clima. O bom de ter sido literalmente um pasto, com uma série de obstáculos do ponto de campo pro ponto onde tiramos as coisas do carro, deu um pouco a ideia de como pode ser exaustivo caminhar sob o sol (embora estivéssemos no inverno, estava quente e se formos pensar que a temporada de "sair de casa" antigamente era no verão, dá pra ter uma base) ou em um lugar lamacento, mesmo que aberto, com todo o equipamento pra se montar uma fortificação inteira. E nem tanto pela questão do peso, mas do volume e quantidade de viagens pra se pegar tudo.

Isso que nós três dividimos a mesma tenda e tínhamos comida para três pessoas comerem por dois dias. Claramente estávamos fazendo alguma coisa errada e um erro que é comum até mesmo lá fora entre as pessoas mais experientes. Se formos parar pra pensar num bando invadindo a Inglaterra em pleno século IX ou então no fyrd anglo-saxão percorrendo 320km em uma semana antes de Hastings, ficou óbvio que você só deve levar para um acampamento realmente autêntico o que você pode carregar sozinho. Ou, talvez, num barco caso você vá recriar alguém que está perto de uma praia ou margem de um rio.

"Mas um soldado romano carregavam cerca de 50kg de equipamento nas costas", sim, eventualmente, mas não carregava traves de uma tenda com 4m de comprimento cada como parte desses quilos. Além de muitas vezes fazer isso por estradas e com ajuda de animais de carga.

"Na guerra dos cem anos a armadura de um soldado podia pesar cerca de 40kg, só ela". Pois é, mas alguém com tal armadura teria um cavalariço, mulas e cavalos também.

O fato é que me refiro especificamente à Era Viking aqui, pois é o período que estudo e busco recriar. Dá pra pensar em comitivas, escravos e tal, mas se o seu grupo não consegue levar todo o equipamento do estacionamento até o local da vivência em uma única viagem, talvez seja bom rever o que está havendo. Ou criar uma boa desculpa como "eu teria um burro pra subir essa montanha e cruzar essa floresta" (Nope).

O lugar seguinte foi uma semana depois, na Oenach na Tailtiu no RJ. Evento que eu já conheço e adoro, não é uma festa recriacionista, mas sim uma festa com uma temática celta (celta mesmo, não fadinhas e duendes, que fique claro).

Cheguei uns dias antes, com algumas das ideias em mente, mas não tanto porque estava indo para fazer uma demonstração do meu trabalho. Então tinha que, obrigatoriamente, fazer várias viagens pra levar algumas ferramentas, o material de camping e também deixar escondido na barraca as coisas do século XXI, já que eu ficaria todo o evento alojado numa clareira sem ter onde colocar as roupas com as quais eu lá cheguei.

Então montei a tenda com bambu. Foi uma oção ao mesmo tempo histórica e não histórica. Não histórica porque era bambu, mas a parte correta é que tentei usar o que havia de madeira no local ao invés de carregar a armação. Acredito que seria algo que as pessoas antigamente fariam, a menos que estivessem indo para uma thing na Islândia, já que não existem muitas árvores por lá.

A parte boa da clareira onde fiquei foi a companhia. Reenactment é uma atividade social, afinal. E essa clareira foi reservada aos visitantes do evento que possuíam um recorte "viking" e que tinham tendas históricas. O Jansen, da organização da Old Norse, o grupo Haglaz e o grupo Antigas Serpentes chegaram com tudo. Então deu uma atmosfera bacana no local. Escudos, lanças, elmos e acessórios de cozinha, duas fogueiras, uma fornalha de redução, muitos quilos de carvão, lenha. Foi uma festa à parte.

Claro que tudo isso acompanhado de garrafas de Montilla e Cantina da Serra, galões de água mineral, copos descartáveis e canecos de alumínio, além de sacos plásticos pra coleta de lixo. Nem tudo são flores, mas mesmo como disse, não era uma festa exclusivmente para recriação histórica, então não foi um incômodo.

Porém tentamos fazer uma alimentação mais autêntica, comendo frutas, carnes, o famoso "Apple-Bacon", queijos, pães... na clareira não havia batata e isso já é algo digno de menção. E pra encerrar ainda houve cantoria ao redor do fogo. Não no sentido hippie da coisa, mas com músicas de temáticas que tinham a ver com o ambiente. Só faltou o Benjamin Bagby recitando Beowulf e tocando lira.

Depois da Oenach eu fiquei pensando em como seria se eu não tivesse levado coisas para vender ou ferramentas pra trabalhar. Mas ao mesmo tempo fiquei pensando em como seria um ferreiro itinerante naquela época. É óbvio que a caixa de ferramentas de Mastermyr não se carregava sozinha e nem por apenas uma pessoa, ainda mais tendo em mente uma tenda ou qualquer proteção contra o clima úmido em Gotland. Assumo que ainda estou pensando em soluções para um ferreiro viajante do século IX que possa envolver apenas mais uma pessoa, ao invés de uma comitiva. As fontes textuais sugerem que um ferreiro e um ajudante funcionariam muito bem, afinal.

Regressando à SP, inspirado pelas atividades do grupo Haglaz (que já mensionei aqui antes) e pelos dois fins de semana de campo, convenci meu grupo a ir em um acampamento nosso, no estilo "leve o que tiver de histórico e improvise com o resto".

Antes disso, no entanto, participei das gravações de um comercial de veículo. E é importante citar isso aqui pela quantidade de pessoas envolvidas, pelo terreno e pelo desgaste físico e psicológico que todo mundo teve. E a parte que diz respeito ao blog: "vestidos de vikings".

Temos achados arqeuológicos o bastante de calçados da época, sabemos pelo menos nessa parte "exatamente" como eles eram. E mesmo assim enfrentamos problemas com escorregões, dores nos calcanhares, pés torcidos e coisas do gênero. Claro que a vegetação rasteira da região do Vale do Paraíba é diferente da que existe na Europa, mas enfim, foi um desafio pensar em alguém percorrendo quase 45km num dia numa região de brejos como é o sul da Inglaterra daquela maneira.

Claro, estávamos com vários quilos de armaduras e com lanças que pesavam pelo menos 8 vezes mais do que deveriam, mas ficamos apenas um dia. A noção de exigência, de dever a se cumprir, de evitar dar pra trás mesmo com o cansaço e tudo o mais me fez entender por que é tão comum em relatos do período a ideia de um guerreiro profissional abandonando sua cota de malha no meio de uma batalha pra lutar desprotegido. E o fator emocional e mental de ter alguém lhe dando ordens sem sentido que devem ser obedecidas me fez pensar num campo de batalha. E isso é reenactment, afinal.

Embora ninguém ali corresse risco de vida e todos soubessem que voltariam para casa, ter uma pessoa despreparada gritando o que você deve fazer e refazer infinitamente durante muitas horas é extremamente cansativo. Ainda mais quando essa pessoa está na sombra e água fresca enquanto você tem que respirar fumaça. Talvez seja um certo problema meu em reconhecer autoridades onde não existam, pode ser, mas imagino que quando você está com a cabeça por um fio você comece a questionar autoridades, mesmo que existentes. A diferença, talvez, é que numa situação de risco você pode extravazar a sua raiva matando pessoas ao invés de obedecer por um cachê.

Então acho que como experiência de levar um sujeito - de armadura, no calor, doente, dormindo pouco mais de 3 horas em alguns dias (como foi o meu caso em particular antes das gravações), com superiores desconhecidos e tudo o mais - à exaustâo física valeu totalmente a pena para repensar uma grande batalha reencenada. Foi cansativo mesmo sabendo que eu estava seguro. Recomendo a experiência.

Mas então, no fim de semana seguinte finalmente o Escudo dos Vales foi ao campo. Novamente o problema das várias viagens surgiu. Especialmente pelo fato de termos a péssima mania de levar o século XXI ao acampamento em forma de malas, roupas e tudo o mais. E comida, muita comida.

E é outro problema da recriação. Tentar reconstituir uma alimentação cotidiana numa situação que exige fastfood. Num acampamento, exceto no caso de um grande evento regional, ninguém vai comer carneiro, porco, vaca... Geralmente você vai comer o que tiver disponível ou comidas fáceis de transportar.

Porém não temos como sair pra caçar coelhos e javalis no meio da mata atlântica. E quantos de nós possui a habilidade de pelar, limpar, separar bons cortes e tudo o mais? E ainda que tivéssemos um javali ali, dando sopa, quem chegaria perto dele sem estar devidamente preparado (se é que tem como se preparar muito contra um animal que quanto mais ferido mais agressivo fica)? Então ok, acho que pro reenactor comum, levar comida é 100% aceitável, porque no local não vai encontrar e, se encontrar, não estamos num ambiente que nos provém aquilo que alguém na Europa Setentrional teria à mão.

E se formos ter em mente que as pessoas saíam pra caçar e voltavam, pois é, mais uma viagem a ser feita pra sustentar o acampamento com comida. E aí surge a ideia do "vou aproveitar que só levo toda essa comida na bolsa, levo junto outras coisas". E começamos a inflar o acampamento novamente, com mais coisas do que talvez seria autêntico pro período. Isso sem nem mencionar a grande quantidade de ânforas e copos de cerâmica. Como transportar tudo isso?

Vão surgindo problemas. Ainda mais quando o local do camping fica a 50m de distância. Pra cima. Pensando em Noruega, isso é fichinha perto da topografia de um fiorde e mesmo assim gera uma grande dificuldade quando se sobe com comidas, barracas, recipientes...

A idéia era fazer um acampamento em uma época de paz, mas de repente tínhamos elmos e escudos dividindo espaço com panelas e tripés. E se for parar pra pensar, antigamente teria também, porque nenhuma estrada era segura como é hoje. E hoje é um bom exemplo de que não tem segurança em estradas.

Infelizmente ainda tínhamos embalagens modernas à vista e apenas uma barraca histórica (embora, novamente, montada com bambu). Tínhamos carnes que dificilmente conseguiríamos transportar por mais de uma semana se estivéssemos no primeiro milênio, tínhamos tochas dessas feitas de bambu com uma latinha cheia de óleo e não sabíamos como seria fazer aquilo numa região sem rios ou água potável, já que estávamos do lado de uma nascente confiável e que ninguém teria diarréia se bebesse a água. Ferver água pra meia dúzia de pessoas, esperar esfriar, ferver mais e não ter muito lugar pra guardar essa água é uma coisa a se ter em mente. E nem sempre as pessoas tinham um rio ali do lado. Ou se tinham, nem sempre podiam acampar por questão de ser arriscado (por motivos estratégicos ou de segurança mesmo).

Porém, acampamento estabelecido e montado, foi como viajar mil anos no tempo. Acender fogo com um ferro baseado num achado de Oseberg e um pedaço de pirita e uns tecidos carbonizados, mesmo no lugar mais úmido de Itariri, foi a primeira pequena vitória. Depois cozinhar ovos de codorna e fazer um mingau com maçãs, aveia e mel coroou a atividade. Tomar cerveja misturada com hidromel direto de uma moringa de cerâmica e falar bobagem ao redor da forgueira durante horas, enquanto  esperava a água ferver e a carne ficar pronta sobre um equipamento baseado em achados arqueológicos foi o que eu esperava do reenactment por anos e que nunca tive a oportunidade de realizar.

E de noite surgiu um dos primeiros problemas: banheiro. Digo, pra homens isso é tranquilo na maior parte do tempo, mas quando no grupo tem uma mulher com histórico de infecção a coisa complica. E ficamos pensando nisso. Reenactment é vivência, é aprendizado, mas não é por isso que vou enfiar uma espada afiada na cabeça de alguém só pra ter certeza de quanto ela corta. Não faz muito sentido colocar a integridade dos membros do grupo em cheque.

Aí tinha a questão do número 2. Como limpar e o que fazer depois com o tecido que usar? Lava? Joga fora? Enterra? Ou até que ponto a higiene seria observada? Tem coisas que talvez fossem comuns pra eles, mas que pra nós são imensamente incômodas, afinal.

Acampamento levantado, teve uma pausa. Eu iria escrever essa postagem logo depois disso, ainda em julho, mas surgiu na minha agenda a Old Norse, também do Rio de Janeiro e resolvi esperar pra postar aqui.

Novamente, não uma festa de reenactment, mas em que reenactors vão. O interessante dessa festa é que ela segue um script em determinado momento. Não é um "re"enactment, mas uma encenação de eventos, meio teatral, que faz uma imersão com o público. Uma ideia que é bastante interessante pra eventos de recriação mais ortodoxos que desejem passar pra uma audiência um determinado evento de forma mais didática e menos presa a narração de acontecimentos como numa escola tradicional.

O que me chamou a atenção nessa narrativa da ON foi a ideia da contação de história que é uma atividade bastante negligenciada na reencenação histórica em geral. Ela vez ou outra surge, mas não é tão presente como a música, por exemplo. E nesta festa ela é um pouco da força motriz da coisa toda. E é uma coisa pra qual os grupos que não são focados exclusivamente em combate deveriam se voltar mais pra ter uma recriação mais rica e principalmente pra explicar períodos históricos para leigos através de dramaturgia. Só frisando que ninguém precisa ser ator pra contar uma boa história, não estamos em uma área de teatro ou cinema, mas é uma forma, digamos, "escáldica" de se passar conhecimento. E como sempre digo em outros posts, reenactment é uma atividade educativa.

No dia da festa pude sentir uma outra coisa dos acampamentos de antigamente que foi a divisão do foco. Havia uma fogueira principal com as atividades da festa e outras coisas acontecendo paralelamente. Inclusive uma reunião espontânea de gente contando histórias engraçadas da vida na barraca do grupo Haglaz, onde passei duas noites.

As ideias de "festa", "reencontro" e "panelinha" (essa última no bom sentido, juro) não tem que ser excluidas da recriação histórica. Elas faziam parte da vida das pessoas que tentamos entender. Elas existiam assim como existem hoje e não tem nada de solene em um acampamento de homens bebendo diante da possibilidade de estarem em sua última noite vivos ou num acampamento de mulheres, crianças, idosos e homens se encontrando para uma grande celebração anual ou para um encontro político e comercial.

A ideia de se permitir vários micro-núcleos de pessoas mais chegadas dentro de um evento é fenomenal. Claro, na Oenach houve um pouco disso também. Isso me lembra a cena do acampamento no maravilhoso filme Henry V (erros históricos à parte, aquilo é Shakespeare e não um documentário). Em um acampamento de uma única noite, com uma marcha no dia seguinte e outro acampamento na próxima noite, não exite o conceito de "atrações" ou "programação". Existe gente que come e fala bobagem com os mais amigos antes de dormir.

E fizemos isso mesmo depois que a festa acabou. Depois de todos irem embora, continuamos na tenda por mais um dia e noite inteiros, cozinhando dentro dela pra espantar a umidade e o frio, improvisando de formas não autênticas pra tenda não ficar completamente ensopada, depois que parte da impermeabilização já tinha ido e por aí vai.

Choveu por dois dias e não tinha muito mais o que fazer. E como a casa com os banheiros ficava bem longe, era tudo feito no mato logo ao lado, já que no escuro nenhum dos outros que ali estavam enxergaria mesmo. Isso me lembrou do que ocorreu nos outros acampamentos da temporada: o ócio. Não é a toa que com frequência vemos resquícios de tabuleiros ou peças de hnefatafl e suas variantes nos pertences de pessoas enterradas. A vida de qualquer pessoa que viaje - e isso inclui comerciantes de guerreiros - é cansativa enquanto o sol brilha alto. Depois que se monta um acampamento, o que é impressionantemente rápido com certos tipos de tendas, você tem um tempo de 10-12 horas até amanhecer e partir. Se você dorme 8 horas, ainda tem um bom tempo pra jogar conversa fora ou se dedicar a outras atividades. E se você viaja com a mesma companhia por alguns meses, chega uma hora que o assunto acaba. Ainda mais quando você não tem internet e chega a ficar dias sem ver mais ninguém.

Agora meu passo seguinte é providenciar um bom tabuleiro ou pensar em bons passa-tempos históricos pro próximo "rolê recriacionista".

E embora oficialmente a temporada desse ano tenha acabado, o plano é continuar no extra-oficial, fazendo mais atividades do Escudo dos Vales. Continuando a busca pelo acampamento reenactor ideal.

sábado, 5 de março de 2016

A autenticidade é a regra, o objetivo, a utopia, mas não pode virar impedimento

Boas!

Protelar pra escrever é uma arte na qual me considero mestre, mas hoje resolvi colocar no papel (ou simplesmente digitar) algumas ideias e "iluminações" que tive faz algumas semanas depois de uma conversa com um membro do grupo Haglaz, do Rio de Janeiro.

Basicamente a conversa foi sobre o "se ter todos os aparatos necessários para se fazer alguma coisa ou não" e isso me deixou com algumas coisas na cabeça e andei pensando se realmente faz sentido você manter um objetivo como desculpa para não fazer o que se gosta. Parece contraditório, mas vou explicando adiante.

Naturalmente não possuímos machados produzidos com as mesmas técnicas que no século VIII quando nascemos. A gente consegue esse tipo de coisa depois de um certo tempo, mas não é por isso que somos incapazes de cortar lenha com uma machadinha estilizada. E isso se aplica a tudo quando se começa a viver essa vida de recriação histórica.

O reenactment em si é uma prática que pode parecer cara pra quem está começando. E é, quando não se tem o devido preparo ou ajuda. E o brasileiro nunca foi o povo com o maior poder aquisitivo do planeta. Isso cria uma distância enorme entre o que se deseja fazer e o que se tem a viabilidade de fazer. Mas veja só, existem outros países com economia tão insegura quanto a nossa que avançam nessa cena. Por quê? Porque é mais importante dar um passo por dia do que sete a cada domingo. Não, não é a mesma coisa.

O recriacionista brasileiro é um pouco afobado. E é natural, já que é um meio novo que muitas vezes é a soma de tudo que o cara queria fazer. E existe um certo receio de "perder a onda" e deixar a chance de entrar pra esse mundinho passar. Pelo menos é algo que eu reparo nas pessoas que são "novas no rolê". Mas como disse no post anterior sobre ser dos 10% ou dos 90%, os 10% são estáveis, são pessoas que gostam disso e que sempre estarão ali mantendo a atividade em alta, mesmo que com um efetivo bem menor.

Essa afobação logo vira um desânimo, uma decepção. Porque entre o pessoal mais puritano existe uma lei maior de sine qua non em relação à autenticidade. E aqui eu amarro o texto até então: autenticidade é cara, sou nova ou novo no negócio e não tenho nada, meu dinheiro é curto, sou afobado e quero tudo, pessoal fodão olha feio pra minha batinha de algodão que nem de longe se parece com uma túnica de lã sou obrigado a me juntar com aqueles que fazem tudo errado mesmo porque querem e crio uma birra com o pessoal da autenticidade utópica, porque eles criaram uma comigo. Percebe o que estamos criando?

Cria-se uma rede de formação para noventaporcentos estimulada, financiada e desenvolvida pelos dezporcentistas que dizem lutar contra os mal reconstrucionistas. E é uma coisa meio cruel até, porque você cria barreiras tão grandes que depois de um tempo ficam intransponíveis. Aquela menina que chegou na festa com seu vestido de cetim toda empolgada e foi esculachada pela moça cheia de ouro e prata no pescoço vai gravar aquilo na cabeça, e vai ficar com medo e aversão daquela ostentação autêntica toda.

- Mas existem alternativas baratas e autênticas! - Alguém grita na multidão.
- Sim, existem.

Mas eis o grande problema com o ser humano: somos inclinados a querer aparecer. E falando em recriação histórica, todo mundo sabe que antigamente, em qualquer período, era a mesma coisa. Agora pensa você que pode pagar 100 reais num vestidinho bonitinho de princesa Disney e vai ser super aclamada entre seus amigos e parentes no Instagram com lentes de contato, cabelo arrumado, orelhinha de elfo e tudo o mais e de repente alguém te oferece, pelo mesmo valor, a grande e imperdível oportunidade de vestir um subvestido de linho cru, de andar descalça, sem maquiagem e cabelo bagunçado. E é o mesmo com a versão masculina da coisa: todo mundo quer ser o guerreiro típico de uma peça teatral de Henrique V ou Game of Thrones, mas ninguém quer parecer um mendigo, um pajem ou um camponês da Normandia do século XIV, por mais "acurado historicamente" que você consiga sem ter que gastar tanto.

Pois é. Mas você acha muito caro pagar 150 reais num par de sapatos de couro que só vai usar duas ou três vezes ao ano e que se pisar de mais em lama vai mofar, encolher ou rasgar. Como artesão eu digo, não é caro, não mesmo, mas eu tenho perfeita noção do poder aquisitivo do brasileiro médio. Pode não ser caro, mas é um valor que está fora do orçamento.

E sem o sapatinho de couro, as calças de lã 100% natural, a túnica de linho tingida com óxido de ferro numa grande panela em casa, seu kit de fazer fogo inspirado em achados arqueológicos (que você nunca vai usar, porque todo lugar que você for já vai ter uma fogueira acesa), sua espada que tem a mesma datação do resto da vestimenta, sua faca de acordo com a espada, mas que você vai ter que deixar na bainha, no ônibus, porque não pode entrar com "arma afiada" na festa e outros apetrechos devidamente catalogados por museus e livros, você não pode participar da patotinha. Certo? Em tese, mas na prática isso é erradíssimo.

Isso cria uma muralha para a prática do "bom reenactment". Ninguém vai gastar uma fortuna em seu primeiro mês de prática (supondo que tenha uma boa orientação, se não a fortuna quadriplica) sem nem saber o que é a prática em si. Pra chegar no terceiro mês e não querer mais. Ou ficar dependendo da vontade dos outros gastarem a mesma fortuna depois.

Então surge a alternativa que surgiu do membro do Haglaz que falei no começo do post: pratique direito, mesmo que não pareça direito. Como assim? Lá no Rio eles possuem espaço pra poder acampar e fazer outros tipos de atividade que são importantíssimos dentro do recriacionismo, sem incluir lutas ou feiras. Mas fazer uma tenda le lã grossa, ou linho de boa qualidade onde pode se chegar a gastar quase 40 metros de tecido costuma sair caro. Aí você fala "não vou fazer um acampamento temático até ter minha tenda de 2000 reais pronta" e você sabe que nunca vai ter, por mais que você queira. E você deixa de aproveitar as milhares de oportunidades de feriados prolongados sem chuva que vão aparecer na sua vida. Ou, você pode fazer como eles e levar a barraquinha de camping e deixar ela escondidinha enquanto você faz a vivência. Ou como eu mesmo resolvi fazer recentemente (depois da tal conversa), que decidi comprar algodão cru mesmo pra fazer uma tenda ao invés de esperar cair uma bolada na minha mão pra comprar um tecido mais apropriado. Quando cair a bolada, eu compro, mas não vou me privar de algo que eu gosto por um detalhe que é o tecido usado na tenda, que em boa parte dos casos só eu vou saber.

Entendem? É como dizer "não tenho uma calça apropriada, não irei participar das atividades do meu grupo por isso" e deixa pra fazer quando tiver a tal calça. Ou sapato. Ou um pedaço de sílex. Vira uma utopia, porque você não melhora em nada procrastinando a atividade, mas você acha que quando tiver aquela pedrinha bonita, tudo vai mudar. E não vai.

Eu passei a ser a favor de "substitutos temporários" e que durem o tempo que precisem durar. Quanto mais eu acampar com uma tenda de algodão, mais eu vou querer uma tenda de lã. Se não "eu não estou precisando mesmo, sabe-se lá quando vou acampar" e vai empurrando, sem viver aquilo que digo gostar tanto. E isso serve pra tudo.

É claro que existem limites, já que eu sou do tipo chatão da autenticidade que luta pra conseguir se manter nos 10% do post anterior. Uma pessoa que diz amar o reenactment e em um ano não consegue reservar dez reais por mês pra comprar sequer uma túnica, mas gasta metade desse valor comprando uma bata indiana, fica difícil, embora existam casos e casos. Ou alguém que diz em claro e bom som "ah, não vou pagar 800 mangos numa espada certinha e que funcione, porque não ligo. Só quero mesmo é me divertir pagando 500 numa toda errada e que talvez quebre que é mais barato", coisa que já passa do conceito da economia ou do pagar mais barato e vira descaso com uma prática inteira. Ou casos ainda mais esdrúchulos como preferir pagar 300 reais num par de botas completamente anacrônicas para usar em atividades recriacionistas ao invés de pagar metade desse valor em peças feitas exclusivamente pra isso e dizer que não comprou a mais barata porque "estava caro" e ainda por cima dizer depois que "não tenho dinheiro para uma túnica nova". Anedotas do reenactment BR. Esses serão sempre membros dos 90%.

Agora, pra fechar o texto voltando ao assunto central, é a questão do esforço que deve contar. Uma coisa é você estar satisfeito com um kit todo feito sem apego nenhum à autenticidade. Outra é você saber que possui erros em suas coisas, mas as usa enquanto não consegue alguma coisa melhor (e demonstra interesse em ter, de fato, algo melhor). No meu grupo, pelo menos, eu pediria pra pessoa esconder os erros pra não aparecerem na foto, mas isso não significa cortar a pessoa completamente do círculo, a menos que virasse a primeira opção, de alguém que não está nem aí pra busca por essa utopia inalcançável chamada autenticidade. Mas nada nos impede de viver uma outra época sem estarmos vestidos adequadamente em cada pequeno detalhe para ela.