segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Como montar um kit - Parte 1: o essencial

Acho que já falei de mais sobre várias coisas relacionadas ao reenactment em si e então resolvi fazer um post para os iniciantes na atividade, mas que também é válido para os mais experientes. Quisera eu ter alguém me dando algumas dicas quando eu comecei, nem que fosse pra eu as ignorar, mas nessa quase uma década a coisa mudou muito e acho que pode ser um post útil pra bastante gente.

Um dos motores pra eu escrever esse post é o chat do pessoal da Old Norse, que reúne membros de vários grupos do Brasil e onde vira e mexe percebo que muita gente tem dúvidas do que pode ou não fazer, ou do que quer ou não fazer ou do que consegue ou não fazer. Afinal, vamos ser sinceros: reenactment é um negócio que pode ser bastante caro e pode ser mais caro ainda se começar indo pra direção errada.

Esse post é mais específico para a Era Viking/Carolíngia, porque é a época que eu conheço mais, mas claro que posso citar coisas de outros períodos quando for conveniente. E é óbvio que eu não domino todas as informações do período e vou me limitar na minha área de segurança nos exemplos, isso aqui não esgota o assunto e não chega perto nem de 1% de esgotá-lo, é apenas um "Crie seu kit for dummies".

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Bom, então você tá fazendo recriação histórica faz um tempinho, ou você já faz tem alguns anos e quer um kit novo, ou você viu uns malucos no parque e achou um troço maroto pra cacete e quer fazer, mas não entende lhufas. Serve pra todo mundo. O que você vai precisar?

A primeira coisa é fazer uma lista de coisas que o kit precisa ou pode precisar. Eu vou dar uma lista aqui pra ajudar vocês a pensar, mas é claro que ela não é 100% completa, mas é a que eu uso quando quero pensar nisso. Obviamente, por eu ser um homem e sempre fazer recortes masculinos, a lista que segue aqui é uma lista para isso. Fico devendo pras mulheres e - por que não? - homens que queiram fazer um recorte feminino.

Sapatos*
Calças*
Túnica
Cinto
Bolsa/sacola/pouch
Capa e broches
Gorro/touca
Utensílios primários (coisas para fazer fogo, pedras de amolar, etc...)
Utensílios secundários (objetos de limpeza pessoal, pentes, linhas, agulhas e retalhos para reparos, etc...)
Facas (de status, de alimentação, ferramentas)
Jóias/"enfeites"
Armas
Escudo
Proteções/armaduras
Objetos de ócio/festividades (tabuleiros de jogos, dados, drinking horns, etc...)
Objetos "comunitários" (panelas, baús, foles...)

A lista pode ser maior ou menor, dependendo do caso, claro. E obviamente uma pessoa não necessariamente precisa de todas essas coisas. inclusive, os itens sublinhados é o que acho que são "essenciais" pra alguém iniciante não se preocupar em fazer feio. TODO o resto pode ser dispensado e ir sendo adquirido com o tempo.

Depois, caso pense já num recorte, é pensar uma classe social. isso antes de determinar local e época. Classe social é a primeira escolha do recorte, ajuda a pensar todo o resto.

Mas ok, aí você gostou da lista, quer começar a fazer recriação amanhã, mas tudo o que eu falei foram coisas, você não tem uma idéia de que recorte você vai fazer, você não tem idéia do que é recorte, porque esse é o primeiro post desse blog que você está lendo, você sabe que você precisa de uma porção de coisas, mas não entende o motivo disso ou o que caralhos é uma pouch. Relaxa, vou explicar item por item com dicas e uma formação de um recorte o mais básico e neutro possível. E também alguns exemlos de "customizações" pra melhorar a aparência do objeto.

Dois adendos, como eu sou um chatão da autenticidade: Primeiro é que o bom senso deve ser mantido. Não adianta eu ter uma calça cheia dos bordados e tablet weavings com ouro e prata "porque é bonita" e vestir uma túnica feita de trapos e retalhos porque quer "ser um camponês". Você vai ficar ridículo, meu camarada. Ridículo pra valer. Segundo é que decoração raramente é neutra, ela sempre está ligada a uma classe social ou período. Se não se decidiu ainda sobre recorte, evite-as o máximo possível, a menos que sejam padrões geométricos simples, linhas paralelas, ponto-e-círculo e coisas assim. Agora, se você já tem um recorte definido, a lista se mantém, claro e você tem maior liberdade de escolher um estilo artístico contemporâneo ao que você se baseia, consegue usar objetos mais específicos que vão dando identidade ao seu kit e por aí vai.

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Sapatos: Claro que a lista começa dos pés à cabeça. Sapatos são sapatos, sem mistério pra isso. Eles cobrem o pé. Duh. Apesar de eu colocá-lo como item essencial, o asterisco ali significa que se você quer um recorte mais pobre, você pode andar descalço. Ou ainda embrulhar o pé com tecidos e tiras de couro. Existem algumas evidências pra esse tipo de coisa, embora sinceramente não me recordo a época e isso sempre acontece com gente das classe sociais mais baixas, como escravos. Outra opção é fazer calças que sirvam como uma meia-calça, talvez com um solado de couro ou com tecidos mais grossos embaixo. Embora existam vários exemplos físicos disso posteriores ao período, nas iluminuras francas do período carolíngio elas são bem comuns.

Existem vários estilos de sapatos e botas do período. Cano alto, curto, pontudos, arredondados, feitos com uma só peça, com duas, com três, fechados com laço, com botões, estilo sapatilha... isso depende muito de recorte escolhido. Vai só uma foto de reconstruções no museu de Hedeby pra terem uma idéia.


Mas se você quer um sapato e não pensou em nada de recorte, o que eu recomendaria seria um sapato como o da imagem abaixo. O exemplo é da atual Holanda e data de alguma data entre os séculos 6 e 8, então seriam pré-vikings, mas existem similares em diversos lugares e contextos como Staraya Ladoga (Rússia) séc. 7-9, Wolin e Gniezno (Polônia) séc. 9 e 10, respectivamente, York (Inglaterra) séc. 9, vários em Hedeby (atual Alemanha, embora no período fosse parte da Dinamarca) séc. 8-10. Outra solução é fazer a sola separada das laterais, como em achados dos mesmos locais, assim como de outros. Na arte, um exemplo que posso citar é no Salmo de Tiberius, do meio do século 11 de Winchester, Inglaterra, onde sapatos com costura frontal são vistos nas ilustrações, continuando essa mesma tradição.


A vantagem desse tipo de sapato é que ele é bastante comum por um longo período, que cobre desde antes até o fim da Era Viking além de uma localização geográfica bem ampla. É uma espécie de sapato coringa.

Mas se quiser outro tipo, recomendo que tenha um recorte melhor definido. E se já tiver um, pesquise bem mais a fundo qual estilo é mais comum na sua área, caso queira fazer algo típico, ou olhe as possibilidades dependendo do recorte em si.

Se for comprar, pergunte que couro o artesão usa. Não compre de quem não souber responder ou de quem falar qualquer coisa além de "atanado" sem se explicar, a menos que você conheça bem o vendedor e ele explique sobre a aparência do material. Já vi e usei no meu começo muitos sapatos feitos com couros camurçados, raspa de couro e outros por serem mais baratos para o artesão (me incluo aqui) e esses couros não possuem nem de longe a mesma aparência de um couro disponível no período recriado. Alguns couros já tingidos, como alguns usados em estofamento de carro, por exemplo, possuem boa qualidade e aparência, mas sempre é um tiro no escuro quando você não conhece o material e geralmente novatos não conhecem. Mantenha-se no "atanado natural" ou "veg/vegetable-tanned leather" que não vai ter erro. Ou, pra quem não se veste com produtos de origem animal, busque algum artesão qualificado que possa te indicar um bom sintético. Não é históricamente correto, claro, mas se você se sente mais confortável com isso, seja feliz com algo que pelo menos tenha boa aparência.

Pra customizar, rola tingir com tons diferentes, fazer uma borda com outro pedaço de couro, costurar as bordas com uma costura decorativa, costurar uma outra sola pra dar mais resistência, e por aí vai.

Calças: Também meio dispensáveis, dependendo do contexto, embora altamente recomendadas.

Existem poucas calças inteiras do período, bem menos que sapatos, por exemplo. E elas raramente são parecidas umas com as outras. O que podemos ver por representações artísticas sempre é complicado porque as túnicas sempre cobrem muito delas nas representações mais naturalistas ou, nas mais estilizadas, é confuso de mais discernir alguma coisa. Além disso, calças são tão distintas umas das outras e ao mesmo tempo possuem tantas coisas em comum até com calças tradicionais atuais que é difícil pensar em moldes e cortes corretos gerais. Eu vou dividir um pouco esse tópico de acordo com os tipos de calças do período, pra facilitar.

Em diversas pedras rúnicas de Gotland, uma ilha no mar báltico pertencente à atual Suécia, por exemplo, é possível ver calças que parecem com bombachas bem largas datando dos século 9-10. Abaixo tem uma figura de prata de Uppäkra, extremo sul da Suécia com uma representação dessas calças:



Além da Suécia, existem evidências artísticas de Oseberg, sudeste norueguês, que indicam o uso dessas calças no início do século 9. Existe pelo menos um fragmento de uma calça dessas de Hedeby do século 10. E fora do eixo do sul escandinavo, há um entalhe desse tipo de calça de Stockburn e em um em  Middleton, ambas no norte da Inglaterra, região que ficou "na mão" dos dinamarqueses durante o período.

Fontes escritas também dizem sobre o uso delas pelos Rus, no leste. Hudud al-'Alam, um persa no século 10 descreve que eles usam calças assim, feitas de linho.

O ponto é que ninguém desimportante era retratado na arte e essas calças precisavam de muito tecido para serem feitas. Some 1+1 e você pode deduzir que esse não é um tipo de vestimenta de gente pobre, mesmo que o achado de Hedeby tenha sido achado sob cisrcunstâncias peculiares, sendo calafetagem de barco. Outra coisa é que a referência sempre vem de locais do sul escandinavo ou com forte presença de pessoas do sul da Escandinávia. Mesmo as descrições do maluquinho persa, talvez fossem viajantes de outro lugar, assim como, veja só, ele mesmo. Se eu sou estrangeiro e só vou ao bairro da Liberdade em São Paulo, eu vou voltar pro meu país de origem achando que no Brasil só tem asiáticos e seus descendentes. Então a palavra de al-'Alam talvez seja um pouco mais válida pela descrição das idumentárias e costumes do que de quem fazia e usava. Mesmo porque em nenhuma ilustração da época ela aparece. Deem uma olhadinha nas calças da Crônica Primária Russa pra ter uma idéia, embora ela seja um pouco posterior à era viking.

Eu, em particular, só recomendo esse tipo de calça para quem queira representar um escandinavo ou alguém com fortes relações com a Escandinávia e principalmente alguém que tenha posses, porque tecido bom também não era barato na época.

Outro tipo de calças são as calças justas, embora elas não atrapalhem a movimentação. Quase toda a arte anglo-saxônica, franca e boa parte da arte escandinava do período as mostra em maior ou menor quantidade, eventualmente junto com outras "soluções" (como as famosas winningas). Ou mostra coisas que possam ser identificadas como tal, porque explicarei sobre as "chausses" ou "hoses" logo mais.

Thorsberg é hoje um lago no extremo noroeste alemão (que antes era Dinamarca) e possui pelo menos duas calças. Uma quase inteira e outra bem fragmentada. Ambas são diferentes entre si nos moldes, embora aparesentem certas similaridades e sejam parecidas visualmente. O problema é que datam dos séculos 2-4. Mas ainda assim considero uma possibilidade caso queira algo mais confortável do que dois tubos de tecido costurados no meio.

Eu também sei de um fragmento da calça de uma criança de Elisenhof, no sul da Alemanha, datada do século 8, embora eu não faço idéia de como esse fragmento se parece.

Além dessas, existe a calça de Skjoldehamn, numa ilha do extremo noroeste da Noruega. Bastante diferente na estrutura dos fragmentos, mas que mostra uma possibilidade extra de construção. Essa data do século 11 ou talvez até 12-13. Também fora do período em questão, embora não tem como dizer se era justa ou não. E como existem pedras rúnicas mostrando calças que não são "balão" e nem justas, talvez fosse uma dessas, com uma aparência mais parecida com as nossas atuais.

O uso desse tipo de calça é liberado pra praticamente qualquer pessoa, independente de classe social, década e localização geográfica dentro do período. É o que eu recomendaria como calça mais coringa. O corte dela é o de menos, já que não existem duas iguais, mas pense em como economizar o material, já que é a forma que eles faziam na época.

Por fim, temos as chausses/hoses. Talvez o que é representado nas ilustrações seja esse tipo de calça, já que a túnica cobre o que as diferiria das outras calças mais justas.

Hoses são basicamente tubos cônicos, geralmente costurados atrás ou na lateral que vestem as pernas e se prendem num cinto sob a túnica. Muitas vezes é mais fácil chamá-as de meiões, mas nem todas tem a parte do pé junta. Elas existem desde antes do período viking e tem seu auge logo em seguida. E existe pelo menos um achado em Hedeby de uma. Além de fragmentos da Groenlândia que datam de uma época imediatamente depois da Era Viking. Abaixo tem uma ilustração francesa do meio  do século 13 mostrando um homem de hoses à esquerda e um vestindo apenas as braies - tipo ceroulas ou cuecas que vão por baixo das hoses - à direita.


É possível imaginar o por que de ser difícil identificar se as calças das ilustrações da era viking são hoses ou não.

Eu não recomendo usá-las em grandes quantidades num mesmo grupo, já que calças parecem ser a grande maioria dos achados e exceto a de Hedeby, as outras são sempre de outros períodos, anteriores, como a de Matres-de-Veyre, centro-sul da França(século 2), ou posteriores como a própria representação acima da Bíblia de Morgan/Maciejowiski. Porém, é interessante de se pensar em uma como uma alternativa às calças, além de serem extremamente mais práticas e consumirem menos tecido, já que as braies podem ser feitas com um grande retângulo de tecido mais barato que não vai ficar visível. Então eu recomendaria apenas para recortes mais estudados e sempre tendo em mente que existe apenas uma perna de uma calça dessas encontrada no período e região relevante pra Era Viking.

Algumas calças na arte da época e de achados arqueológicos, são como meia-calças, como disse ali na parte dos sapatos, então eu não desencorajaria o uso dessas, mas recomendo aos iniciantes que usem partes separadas pra terem uma chance de "edição" maior com o tempo. Ou então calças com pés integrais que possam entrar dentro de sapatos. De todo modo, muitas vezes os pés são costurados à parte, então não chega a ser um grande problema. E existem calças assim desde o século 2, com Thorsberg, até sabe-se lá quando, já que o homem de Bocksten também usava uma dessas no 14. E, claro, embora mais presente na moda feminina, estão em uso até hoje. Então assim, é uma questão de escolha pro novato, mas pensem em algo que sejam confortável, prático e que vocês não vão se arrepender depois.

Finalizando as calças, existem também as winningas ou putees. São longas faixas de lã enroladas na canela pra manter a roupa bem junta à perna. Geralmente são presas com ganchos triangulares ou em forma de gota que ficam costurados ou amarrados à ponta da faixa. Eu não faço muita ressalva a essas roupas, independente de recortes, mas acho que pro iniciante é melhor focar em outras coisas antes de providenciar winningas que não serão mais substituidas.

Os tecidos que você deve procurar são linho e lã, apenas. Fontes escritas e materiais apontam o uso de ambas e mais nada. porém, todavia, contudo, quando uma fonte material é descrita como "linho" ela se refere a qualquer tecido de origem vegetal, incluindo tramas mistas, que talvez houvessem na época para as populações mais pobres. Cânhamo era usado pra tecidos que não fossem acabar em roupa (afinal aquilo coça), por exemplo, mas um escravo talvez não tivesse muita opção. Algodão talvez pudesse ser vendido a preços bem caros no norte da Europa, já que era produzido em áreas de cultura islâmica ou no Império Bizantino. Mas a menos que você use uma roupa com influências islâmicas/bizantinas no próprio corte, o que é perfeitamente possível, evite algodão porque visualmente é muito distinto do linho e principalmente da lã.

Se você também acha que linho e lã puros são caros, bem vindo ao clube. Mas se você é menos radical sunita do reenactment do que eu, existem tecidos mistos de linho a um preço muito mais acessivel. E a aparência é bastante ok. Algumas das minhas túnicas de linho misto, quando colocadas lado a lado com as de linho puro, enganam muito bem. E moramos no Brasil, país tropical, calça colada de lã é meio... complexo. Mas eu recomendo, quando possível.

Lã, infelizmente, é caro. E lá de qualidade é mais ainda. Embora algumas coisas role fazer com feltro de lã (não aquele feltro com vários nomes politicamente incorretos), é difícil de se encontrar e não é bom pra roupas que ficam grudadas no corpo. Coça, esquenta e rasga. Mas, pra uma sola de calça, é mais ok.

Tecidos pra calças podem ser lisos ou com padrões tecidos, como diamantes, aqueles ">>>>" listras e afins. Evite xadrez com muitas cores e coisa e tal. Além disso, assim como pra túnicas à seguir, não use tecidos pretos. Apesar de existirem tintas pretas para pinturas de pergaminho, madeira, até de barcos, não existia uma forma de tingimento que mantivesse a cor preta por muito tempo no tecido. Na primeira água que batesse já ia desbotar e levando em conta que estamos falando de regiões onde neva, que são cobertas por rios, lagos, mares e o Atlântico Norte, água é o que não faltava pra tirar a cor dessas roupas.

Se seu recorte é mais neutro, use como decoração no máximo uns tablet weavings ou ganchos pra winningas sem desenhos, ou com padrões geométricos mesmo, lembrando que qualquer decoração é sinônimo de status, independente de época e local. Isso inclui tecidos com padrões.

Túnicas: basicamente uma camiseta longa que termina em algum ponto entre o joelho e a cintura. Essa parte é bem mais fácil de escrever que a parte das calças, já que embora existam várias túnicas e nenhuma seja igual à outra, são bem mais uniformes, mesmo que de vários tipos.

Se for ver, túnicas parecidas já eram usadas pelos germânicos que encheram os sacos romanos e continuaram em uso até o século 15. Lembrando que o Brasil foi "descoberto" no 16. Então pensa que túnica é um negócio persistente. Ainda mais se for pensar que elas estavam em uso lá na Noruega até no Egito, da Rússia à Islândia e Irlanda. Pensa nisso.

Das túnicas do nosso período, as diferenças estão nas nesgas - ou "gores" -, comprimentos e golas. Além da construção básica, claro.

Um tipo possui as tais nesgas, que são triângulos na barra. Como elas terminam abaixo da cintura, é natural que tenham algum esquema pra não rasgarem quando você abre a perna. E você costuma abrir a perna pra, sei lá, andar. Esses triangulos ficam geralmente nas laterais ou nas laterais e nas faces (frente e trás). Sempre em números pares. Bom, às vezes são em forma de trapésios, com pregas e tal, mas vou facilitar aqui e cortar esses. Às vezes cada triângulo é formado por outros dois menores, pra economizar tecido, às vezes são inteiriços. Às vezes no lugar dos triângulos as faces alargam nas laterais, mantendo a mesma aparência geral da túnica, mas com menos partes e a necessidade de usar tecidos maiores. Às vezes... Enfim. Sabe a imagem da Bíblia de Morgan que eu coloquei ali em cima pras calças? É aquilo ali. Mas também é o que tem aqui em baixo:


(Essa montagem foi tirada de http://awanderingelf.weebly.com/. Mesmo sendo imagens achadas na internet, eu assumo minha preguiça em juntar todas numa só imagem e acho que os créditos são importantes. Olhem o site, aliás, se quiserem ler muito sobre roupa.)

Moselund e Kragelund ficam na Dinamarca, para fins de localização. Guddal e Skjoldehamn, Noruega. E na arte do período existem diversas com a mesma aparência da França, Alemanha, Inglaterra... Existem túnicas similares na Groenlândia, como disse, no Egito e por aí vai. E embora essas da montagem sejam séculos 11-12, outras de outros períodos são basicamente iguais.

Outro tipo de túnica é a que não possui as nesgas. Então elas tem aberturas nas laterais, como essa abaixo:




Pois é, eu sempre falo dela aqui no blog por ela ser muito legal. Na reconstrução ali do lado direito dá pra ver o cortezinho na lateral que falei. Essa é a Túnica do Homem de Bernuthsfeld, oeste alemão. Data do século 8. Imaginem a reconstrução dela como uma túnica comum no período, porque era. Embora a original nem tanto, claro.

A túnica de Bernuthsfeld é muito parecida no formato que uma de Thorsberg, com a mesma datação das calças. E também parecidíssima com uma de Guddal. É uma tradição paralela à túnica com as nesgas, que a acompanha nos mesmos lugares e épocas.

O que dá pra imaginar é que essas sem nesgas sejam mais usadas por pessoas com menos posses e as outras com pessoas de mais posses, mas não é uma regra, já que São Francisco de Assis usava túnicas com as nesgas, feitas com muito tecido e muitos retalhos. E a de Thorsberg, embora de uma época bem anterior à Era Viking, feita com lã de padrões bem elaborados, assim como algumas do cemitério de Guddal. Mas o que se precisa é bom senso: um homem de posses talvez usasse uma túnica com menos tecido por praticidade. Um guerreiro não ia usar sua melhor túnica pra rasgar numa expedição de saque. E eventualmente quando tivesse remendos de mais, talvez um rei daria sua túnica velha pra algum servo mais querido. Isso é importante: pessoas tinham mais de uma roupa na época e óbvio que nem todas eram iguais.

Talvez essas sem nesgas, cheias de remendos, fossem usadas como "undertunics", mas muitas vezes esses homens achados mumificados em pântanos só vestem uma camada de roupa, mesmo que estejam com capas e gorros. É difícil de afirmar.

A outra diferença é a gola. Como vocês podem ver pelas imagens, existem diferentes estilos de gola. Nenhuma é 100% igual à outra. Então "crossovers" entre os estilos não é necessariamente um problema.

Eu usaria - se eu fosse um iniciante hoje - uma túnica sem nesgas, independente do meu recorte. Faria uma túnica de linho, que chegasse até um pouco acima da metade das coxas. Larga, isso é importante. Sempre multiplique a medida da sua cintura por pelo menos 1,25 se quiser algo confortável e que não rasgue ao vestir e despir. A gola eu faria como a de Moselund, que é de longe mais fácil de ser feita, mas algo redondo, como a da ilustração da Bíblia de Morgan também é ok pro período viking e ainda mais fácil de se fazer, mesmo a bíblia tendo sido feita 200 anos depois de a ponte de Stamford.

Pra ter uma customização, você pode escolher um tecido mais legal, fazer uma costura decorativa, até bordados, como em Mammen (Dinamarca, século 10). Ou costurar os tablet weavings nas bordas também. E a mesma regra vale aqui: decoração fica sempre algo específico, você fecha o recorte, mas abre possibilidades com isso. Estude antes de decorar algo.

Tecidos vai a mesma regra que as calças. Mas embora existam túnicas de lã, galera, Brasil. Não sofra à toa.

Cinto: diferente dos nossos atuais, um cinto desse período geralmente é mais longo e mais fino, embora toda regra tenha exceções.

Você vai precisar de um cinto pra prender a calça no lugar e um pra segurar a túnica, sendo o primeiro "invisível" no recorte, então na falta use um moderno mesmo. O segundo precisa estar certinho.

Existe uma caralhada de formas de fivela, pra não ter erro, use uma em forma de D, sem adornos, que estará correto pra qualquer período na história dos cintos. Vai de ferro mesmo, ou de QUALQUER liga de cobre. "Bronze", na arqueologia se refere a "liga com maior parte de cobre e sabe-se lá o que mais". Sério. A menos que tenham uma análise da composição, que não é sempre que fazem.

Além da fivela e do couro, existem "enfeites" pra cinto. Sabe o que eu falei pra decoração? Então, vale aqui. Não importa se você se decidiu que quer fazer um cara de Hedeby e achou um cinto completo de Hedeby. Decoração também significa classe social também. Então pensa direito nisso que é um negócio que amarra de mais o recorte.

Por fim existem os "strap ends", que são ponteiras pros cintos. Não são obrigatórios, claro, mas facilitam o uso um bocado. Eles deixam a ponta rígida e pesada, então passam mais fácil pela fivela e deixam o couro esticado sempre. Caras, esses dias eu baixei uma tese de doutorado de 530 páginas sobre strap ends no atual Reino Unido. Existem MUITOS estilos e formatos pra esses negócios, então tomem cuidado pra não comprarem coisa errada pros cintos de vocês, porfa. Eles são decorativos ao extremo. É a função principal, além de esticar e passar mais fácil. Então, a regra se aplica aqui mais do que nunca.

Uma imagem de algumas fivelas e ponteiras de Birka vai abaixo, pra ilustrar isso direito.


Pro iniciante: Um cinto com uma fivela de ferro ou liga de cobre (vale zamak aqui, não esquenta tanto), com mais ou menos 1,5-2cm de largura, presa no couro tanto com uma dobra da tira costurada nela mesma ou com uma chapinha de latão/cobre/outra liga de cobre que não estilhasse. E que seja no máximo uns 30cm maior que a circunferência que ele vai prender. Não adianta fazer um cinto que chegue até o chão, isso não existe em nenhuma representação do período viking. Pra ponteira eu evitaria ou faria uma de latão, entre 4 e 7cm de comprimento, com a largura do couro, com formato de U e com uma decoração bem simples de triângulos, círculos-e-pontos, argolas e linhas (não necessariamente tudo isso junto). Ou uma de ferro reta dobrada ao redor da ponta.

Couro aqui procure atanados/soletas tingidos ou vaquetas. Desaconselho outros couros.

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Bom, esse post me levou praticamente um dia pra ser escrito, então não sei quando vou continuar com a parte 2. Mas uma hora sai.

De novo, não pretendo esgotar nenhum assunto, só dar uma pincelada pro iniciante saber o que fazer e pro experiente conseguir criar um "método" de decisão de recortes que talvez funcione pra ele assim como funciona aqui.

E a vida segue, até o próximo.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A cópia exaustiva, a falta de pesquisa e os Power Rangers

Pois é, um dos problemas mais comuns em alguns períodos de reencenação histórica.

Já viu fotos de um evento ou talvez já esteve em um em que você se sentiu em uma conferência dos Power Rangers? Deixa eu explicar melhor: imagine que você vê um grupo de reenactment onde todos recriam a mesma localidade e período. Normal, existem aos montes. Mas imagine que ao invés de buscar várias referências, o grupo inteiro pega tipo um pacote fechado e todo mundo calça sapatos do mesmo modelo, túnicas com o mesmo corte, gorros idênticos, espadas de um mesmo modelo dentro de uma mesma marca e por aí vai. As únicas mudanças são tamanho e cor. Pois é, parece que você está assistindo aos Power Rangers e todos tem pouquíssimas variações de um mesmo template.

No reenactment isso é comum.

Lembra do post sobre conjectural ou sobre o micro-recorte? Então, dá uma relida caso tenha esquecido. Ajuda.

Vamos lá, como alguns arqueólogos e historiadores da arte sugerem, era comum em vários períodos, especialmente os períodos Merovíngio e Carolíngio (ou Era das Migrações e Era Viking, se preferir o nome) que grupos de guerreiros afiliados a um mesmo chefe usassem "enfeites" similares, como broches, ponteiras e bocais de bainhas ou outros objetos. Mas isso demonstrava mais uma forma de se identificar através desses detalhes do que qualquer forma de padronização como um uniforme ou farda.

Além disso, é perfeitamente possível que um determinado senhor encomendasse esses objetos em um mesmo artesão ou oficina, o que explica o fato de que tecnicamente todos fossem parecidos. Diferente de hoje onde um artesão pode acessar todo um leque gigantesco de estilos, técnicas, materiais e afins, um artesão dos períodos citados acima provavelmente seguia uma única "escola" ou tradição que permitia que ele tivesse pouca liberdade para experimentar e mudar sua produção.

O que explica provavelmente o fato de alguns estilos de hilt de espadas, por exemplo, estarem confinados a regiões geográficas minúsculas, como as tipo G da tipologia Petersen terem uma maior incidência no sudeste da Noruega, ou as tipo S-Pyast em pontos específicos da Polônia. Isso nos dá exatamente o local e data onde o artesão atuava. Mesmo que haja uma ou outra fora desse núcleo, a gente sabe a origem.

Mas veja só, mesmo essas coisas não eram idênticas umas às outras. Não existem duas espadas iguais, mesmo que hajam espadas quase que gêmeas. Não existem duas túnicas iguais, mesmo que todas sigam mais ou mesmo as mesmas linhas gerais. Não existem dois sapatos iguais, mesmo que os contornos gerais sejam similares. Sabe por quê? Porque eram feitos à mão.

Nossa sociedade contemporânea tem uma dificuldade ENORME em entender o que é trabalho manual. Mesmo pessoas envolvidas com trabalhos manuais tem essa dificuldade. Porque nós somos treinados desde que nascemos a criar padrões, a replicar coisas até que quase não tenham variação e a exigir exatamente aquilo que se espera no produto final. E antes do século XVIII isso NÃO EXISTIA. Esse conceito de querer duas coisas idênticas é um conceito que só foi possível com a revolução industrial.

Quer prova? Olhe as famosas e famigeradas Ulfberhts. Nem a escrita é igual. "Ah, mas a Cawood e a Korsoygarden são idênticas". Não, não são. Elas são parecidas, com muitos elementos similares que provavelmente as colocam como filhas da mesma oficina, mas não são iguais. Elas tem ângulos visivelmente diferentes, elas tem detalhes diferentes. Até o tamanho muda em alguns centímetros. E alguns centímetros fazem muita diferença. Porque isso significa que elas não foram feitas para serem idênticas, como produtos em série, mesmo que tenham sido feitas para serem parecidas.

O mesmo acontece com guardas e pomos de algumas tipo K Petersen francas que possuem decoração e estilos similares, mas em nenhum momento se pretendem do mesmo tamanho.

Claro que é extremamente mais fácil chegar no costureiro ou sapateiro e falar "quero três túnicas assim". É como nosso mundo funciona hoje. Mas eu conheço muitos reenactors que fazem as próprias roupas, sapatos e outros objetos de uso cotidiano. Não tem problema ser um pouco conjectural de vez enquando. Mesmo porque, se for parar pra olhar, boa parte das coisas mais icônicas que temos tem uma grande base conjectural.

Algumas túnicas foram reconstruídas no puro chute, já que estavam danificadas de mais pra realmente servirem de testemunho de como eram. Espadas, elmos, facas... Muito do que temos são sombras remotas que permitem muita invenção em cima. Sabem do achado que teoricamente teria a palavra Alá escrita num alfabeto que só teria sido inventado séculos depois? Então, arqueólogos fazem aquilo o tempo todo. Mas às vezes ninguém se importa com a notícia e a "verdade" pega. Uma prova disso é que existe debate acadêmico sobre quase tudo o que se acha e que tem alguma importância. Se tem debate é porque existem duas teorias distintas, no mínimo, sobre cada achado.

E o que isso tudo tem a ver com copiar, não pesquisar e Power Rangers? Bom, se você pesquisa sobre túnicas o suficiente, até o suficiente pra estabelecer uma tipologia pra elas, você começa a pensar em tipos, não em achados específicos, a menos que o que você esteja fazendo seja uma réplica, aí é pano pra outro post.

Mas qual a vantagem de trabalhar com tipologias? De novo falando de espadas, que é a minha área de estudo, mas a analogia serve pra todo o resto. Se alguém me pede uma "Tipo M Petersen" eu tenho uma grande liberdade pra fazer algo desse tipo. Posso escolher um perfil de lâmina condizente com o hilt, posso pensar numa decoração de empunhadura e bainha condizente com o hilt, posso fazer um hilt que esteja dentro dos "parâmetros" pra uma tipo M que fiquem bons com o estilo geral da peça. Vai ser uma espada autêntica, perfeita pro período, mesmo que não seja uma réplica de nenhum achado específico. E o dono vai ter uma peça que é só dele, não vai ver outra exatamente igual por aí, mesmo que veja outra tipo M. Isso é historicamente correto.

Se o cliente pede uma espada "igual a de Lesja", que é uma "anomalia" classificada como tipo M por falta de coisa melhor, por assim dizer, é uma coisa interessante pra um recorte norueguês do século IX ou X, que sai da curva. Mas já pensou se ele pede 5 "pro grupo"? Basicamente seria como pensar em produção em massa de produtos iguais pra esse período de séculos IX e X.

E isso gera simplificações que são no mínimo ridículas. É como se chegasse "ah, eu tenho uma espada Lesja", dando a entender que existem várias espadas iguais em Lesja. É diferente de falar "Tenho uma Ingelrii", porque de fato existiam várias dessas, mesmo que todas com diferenças marcantes. Mas hoje temos "calça Hedeby", "Sapatos Jorvik", "elmo Vendel/Valsgarde", ou meu favorito, "espada Petersen" que não diz absolutamente nada.

Além de existirem mais calças do que apenas uma em Hedeby, vários pares de sapatos em York, vários elmos em Vendel e Valsgarde e pelo menos 30 tipos de espadas categorizados pelo Petersen, às vezes esses achados são tão fragmentados que fazer um trabalho e dizer que foi achado em um determinado lugar é abusar do bom senso. É como eu dizer que minhas calças são baseadas em um achado de Hedeby quando na verdade o achado original tem só os restos de uma coisa que poderia ser uma calça, uma cueca, uma meia ou qualquer coisa do gênero.

Aí por isso é importante estudar. Porque quando você olha como os cortes de, digamos, uma túnica era, você percebe que pode reconstruí-la de pelo menos três maneiras diferentes. E você vê proposições de outros arqueólogos além daquele que postou em um blog sobre como os vikings eram muçulmanos. E percebe que talvez aquela reconstrução que todo mundo do seu grupo usa nem seja a mais possível. Mas você compara com outros achados, com tipologias e você passa a ver o que faz sentido ou não. Lembrem-se que as peças de pernas e braços de Valsgarde foram assumidas como uma proteção de abdômem por algum tempo, até alguém sugerir que talvez a pessoa usando aquilo não conseguiria se mexer.

E daí talvez você possa usar uma determinada construção que ninguém sugere porque ninguém tentou reconstruir e que você vai e descobre que é mais confortável do que uma que algum arqueólogo propôs. E que talvez fosse a forma com que a roupa tenha sido feita. Ou simplesmente escolher uma equivalente de algum período e local próximo se você ver que é plausível. Embora isso exige estudo, coisa que a maioria não está disposta a fazer.

O que não rola é dar motivos pras piadas que os gringos fazem entre eles quando alguém aparece com alguma coisa muito maluca e sai dizendo que "é de Birka", mas um conjectural responsável é melhor do que ter vários clones multicoloridos.

Evite copiar o tempo todo, principalmente quando você percebe que seu grupo tem várias coisas iguais. Mesmo que seja um grupo inteiro com um recorte bem pequeno, por exemplo "Francos da primeira metade do século IX". Olhem a Bíblia de Morgan pro século XIII, por exemplo. Ela é fenomenal que até numa representação artística, com vários equipamentos do mesmo tipo, você repara em detalhes que diferenciam cada uma das adagas, espadas elmos e roupas numa mesma cena.

Não faça seu grupo ou um evento se tornar uma conferência de Rangers. A menos que seja um reenactment de algum período mais recente, claro. Mas falando da Era Viking, ela não era monótona como alguns gostam de pensar. Ela era rica e cheia de possibilidades. Não vamos cair na mesmice.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O conjectural: prós e contras ao criar peças "do nada"

Primeiramente eu acho necessário dizer que esse tópico seria também tratado no post anterior, sobre buracos e micro-recortes, mas como se extenderia de mais, achei melhor dividí-lo. Caso não tenha lido o texto anterior, recomendo que o leia antes desse, já que ambos conversam muito.

O que é "conjectural" dentro do reenactment? É tudo aquilo que "poderia" ser, mas não é. Ou seja, é uma peça inventada, sem um análogo imediato em fontes escritas, materiais ou representativas, mas que é feito de acordo com suas "primas".

Um exemplo bem simples que eu costumo dar é pensar em escudos. Se eu encontro cinco escudos entre 90cm e 93cm em uma localidade e na localidade vizinha eu encontro mais seis entre 85cm e 88cm, eu posso afirmar com certa segurança que existiam escudos de 89cm na região. Logo, ao fazer um escudo de 89cm, estou fazendo algo conjectural, já que ele não tem um análogo direto na arqueologia.

Outro motivo bem simples pra eu citar os escudos é que eles quase que 90% das vezes são conjecturais e ninguém faz alarde quanto a isso. Embora, é claro, existem menos implicações teóricas e práticas em aumentar ou diminuir 1cm de um disco de madeira do que em outros tipos de objeto/atividade.

A ligação deste texto com o do micro-recorte é justamente que o conjectural tapa buracos que acabam surgindo de um modo bem mais freestyle. Então se eu quero fazer uma representação 100% fiel a um achado específico e o único buraco que eu encontro é com que cor o escudo de madeira foi pintado, eu vou lá e faço uma pintura baseada em representações artísticas de época, mas mudando, por exemplo, o número de divisões no círculo de 13 para 12. O que eu acabei de fazer é conjectural. Em dobro, já que além de mudar uma forma reconhecida de pintura, eu ainda a aplico em um escudo que talvez tivesse algo bem diferente em sua face, afinal, dificilmente um escudo dinamarquês seria pintado com motivos gotlandeses.

Pode não parecer muita coisa, mas imagine que eu escolho um determinado túmulo e falo "estou recriando o esqueleto número X de um lugar Y" e pinto sua túnica de vermelho. Mas de repente aquele cara vivia num reinado de algum rei maluco que proibiu o vermelho das roupas por ser uma cor pecaminosa e ostentosa, ou porque só o rei e nobres tinham permissão de usar vermelho ou sei lá. Mas essa lei nunca chegou pra nós, que fique claro. Pois é, estou sem querer criando algo que talvez fosse proibido e que jamais aconteceria nesse prazo de uns cinquenta anos que estou tentando reproduzir.

E se a tal lei do vermelho tivesse chegado até nós, mas nunca tivesse sido traduzida, tirando por algum desocupado bielorrusso? Daí quase ninguém ia saber, eu faria aquele esqueleto, usaria a túnica vermelha, porque eu gosto de vermelho e daí um dia eu encontraria um reenactor muito manjador lá da Bielorrússia que me diria "ei, vermelho é uma cor proibida nesse seu recorte". Eu posso fazer duas coisas: primeira é trocar a cor da roupa, retingir, fazer outra, whatever. Segunda é dizer "é conjectural. Estou usando o homem X do lugar Y como molde pra reproduzir um homem do lugar Z, que é atravessando o rio e que tinha outras leis".

Parece um escapismo, né? Pois é. É. Mas e se você soubesse falar bielorrusso e tivesse lido a fonte original e realmente quisesse fazer um cara da localidade Z, de onde a arqueologia só tinha retirado livros ilustrados da época mostrando roupas vermelhas e não outra forma de cultura material? Porque vai que o rei Z, na mesma época, tinha criado uma lei proibindo o enterro das pessoas, só permitindo cremação? O que não pode é mudar em cima da hora pra evitar ser feito de desconhecedor do próprio recorte.

Isso cai no micro-recorte e como expandí-lo, que eu já falei no outro post, mas a escolha das cores, de acordo com o que era possível, permite que você mude ou edite o achado.

O conjectural, em outras palavras, é o "possível, mas não provável". Mas não o provável no sentido de probabilidade e sim no sentido de já ter sido ou não provado.

E quais são os problemas dessa prática? Um é que você está sujeito a ser descredibilizado no dia em que surgir algo que explicitamente negue seu recorte. Como a descoberta da lei do rei Y em bielorrusso. Outro é que você realmente precisa estudar cada detalhe e nem todo mundo tem a disposição, aptidão ou tempo pra isso. Sério, reenactment é um hobby e tem gente que gosta apenas da parte mais prática do hobby e não tem problema nenhum nisso, mas pra esses eu recomendo usar coisas mais comprovadas e de conhecimento geral, pra não ficar em saia justa. É complicado quando algum reenactor sem disposição pra estudo resolve fazer aqueles recortes mirabolantes super raros.

O problema de ter que estudar muito o que se faz é justamente o fato de ser humanamente impossível saber sobre tudo de uma época passada e ainda ser funcional na nossa. Eu posso entender sobre produção de armas e outros artigos de ferro na Era Viking, mas não entendo nada sobre confecção de barcos ou a melhor forma de abater uma ovelha. É normal. Assim como tem gente que entende muito de culinária e arquearia e não faz ideia de como curtir uma pele. Mas se você não tem conhecimento de alguma área, você pergunta pra quem tem. Esse é o principal motivo de formarmos grupos, pra que um dê suporte ao outro.

E qual a vantagem, afinal, do conjectural? Várias, desde que feitas com responsabilidade.

Pra começar, eu volto à parte do micro recorte. Lembram do Bockstenenman? Pois é, como disse, ao copiar tudo o que ele vestia e usava você vai se parecer com um homem do século XIV. Com UM homem do século XIV.

O que quero dizer com isso? Bem, eu sou ferreiro e é muito comum eu receber pedidos de gente querendo "uma espada modelo tal", mostrando uma foto de algum trabalho que já fiz. Ou ainda pior falando "quero essa". De novo, o que eu quero dizer com isso? Assim como hoje meu trabalho é artesanal e não existem duas peças iguais, mesmo com réguas e suas medidas precisas, materiais padronizados da indústria, ferramentas mais precisas do que três ou quatro escravos e o fato de eu produzir bem mais sozinho do que um ferreiro naquela época produziria (a velocidade do mundo é outra e eletricidade faz umas coisas beeeem marotas).

O fato é que não existia industria e controle de padrões em períodos da história antes do século XVIII. Isso quer dizer, caso ainda não tenha entendido, que não existiam duas peças exatamente feitas da mesma maneira e que muitas vezes tudo que um artesão tinha pra se basear para uma nova ideia era um relance de longe. Ou você acha que TODO FRANCO do século IX falou "vou fazer uma espada assim, assim e assado" depois de ir numa escolinha? Não. Ele viu uma e copiou do jeito que pôde. É como a eterna discussão das Ulfberht e suas infinitas variações de forma, escrita, materiais e todos aqueles erros de escrita bizarríssimos em qualquer espada com inscrições.

O problema de seguir exatamente um único achado sem contextualização é que você cai na lógica de padronizar uma época não padronizada. E a gente não faz isso nem hoje com toda nossa padronização.

Voltando ao Bockstenenman, já parou pra pensar que se só tivesse ele de achado de roupa do século XIV, todo mundo ia se vestir igual? Imagina num evento de batalha de Visby, por exemplo. Com um bando de Power Rangers multi coloridos, mas usando as mesmas roupas. Não, a época definitivamente não era assim.

Exemplo? Eu acho a Bíblia de Morgan um dos documentos mais fascinantes do século XIII. Não só como alguém formado em Artes Plásticas e cansado de tanto ler sobre História da Arte, mas como reenactor. Você vê que os ilustradores fizeram questão de mudar as cores das roupas de cada um dos homens desenhados, mudar detalhes nas armas, detalhes nas armaduras, detalhes em tudo.

É como os diversos padrões diferentes na Tapeçaria de Bayeux, que talvez representassem a mesma coisa pras bordadeiras que a fizeram, mas que provavelmente fossem códigos visuais pra coisas diferentes também.

Mas sim, dependendo do período a coisa fica mais nebulosa. É impossível distinguir algo real em estilos de arte animal germânica ou posteriormente os estilos nórdicos. Mesmo porque eles não serviam pra retratar a realidade anyway.

O ponto é que se eu pegasse a túnica de Bernuthsfeld, usasse o corte dela (não os retalhos, mas o corte geral de forma depois de montada) e fizesse uma túnica bem feita, não tem autoridade no mundo que diria que ela não é autêntica. Mas ela não seria réplica de nenhuma peça histórica. Ela seria conjectural. Só que pra isso eu preciso estudar várias túnicas do período, além da questão de contexto, pra ter bons argumentos na hora de explicar porque eu estou usando isso e não uma outra túnica qualquer.

E olha só: o cara que inventar uma túnica assim baseada em vários achados diferentes fatalmente conhece MUITO MAIS o recorte do que quem apenas replicou um achado sem estudar outras fontes. Como sempre, tudo esbarra em estudo no final.

Pra dar exemplos práticos do que é conjectural e o que é bosta de boi, pense em um escudo redondo "viking" feito de compensado. Mas não como o compensado moderno e sim como sugerido naas Gulaþing e Frostaþing. Não se tem achado de como isso era feito. Mas se você fizer dessa maneira, é conjectural. Se você fizer como o compensado romano, é conjectural. Se você fizer com o compensado moderno, não adianta se embasar em fontes, não é conjectural, é uma forma de baratear os custos de uma peça que quebra o tempo todo. E tendo consciência disso e estado disfarçado, tá ok.

Elmos do período viking ou um pouco anteriores. Se você faz um elmo "esferocônico", com quatro partes unidas por tiras e uma viseira que fique em qualquer lugar entre Vendel 1 e Kiev, é conjectural, porque as construções de todos são basicamente as mesmas, mesmo que de períodos diferentes. Fazer um elmo cônico (de uma só parte) com uma viseira é mistura. Não é conjectura, é invenção.

Qualquer armadura do século XIV que você encontre em uma efíge, ou pintura, ou manuscrito é conjectural. Principalmente quando você vê várias bolinhas pintadas em membros. Você não sabe como a peça é construída, mas você se baseia em alguns achados e faz esse chute. Mas inventar tudo só porque o resultado final se parece com a escultura, sem olhar outras armaduras da mesma época, é invenção.

O segredo é ver padrões na diferença. Isso permite que você crie algo autêntico, mesmo que não tenha um análogo imediato. Inventar por inventar é irresponsabilidade. Modificar achados arqueológicos sem conhecer outros paralelos é irresponsabilidade. Vender ou fomentar ideias e objetos sem entender aquilo que se está fazendo é irresponsabilidade.

Também é um bocado irresponsável sugerir que qualquer período da história deva ser representado apenas por uma parcela minúscula de resquício material, replicada infinitamente sem uma compreensão maior do que esse resquício poderia ser.

O conjectural deve sim ser incentivado, mas não se você ou seu grupo não tem maturidade dentro da atividade ou conhecimento específico pra inventar essas coisas. E claro, cada grupo possui uma política em relação a isso e alguns banem o uso de objetos desse tipo. Não tem problema nenhum nisso.

Mas dando exemplo da Era Viking uma última vez nesse post: é melhor ver cinco elmos esferocônicos conjecturais diferentes numa parede de escudos do que cinco réplicas do único elmo inteiro encontrado no período. inventar, nessa hora, vai com certeza ficar muito mais pareciso com uma visão da época do que ser completamente fiel à evidência material.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Micro-recorte, buracos e como pensar no contexto

Eu dei uma pincelada na parte do "micro-recorte" (não usei o termo antes, mas disse o que penso dele) sem querer em um post de quatro anos atrás sobre a importância da especificidade do recorte e, apesar do que eu vou falar hoje parecer contradizer aquele post em um ou dois pontos, se você prestar bem a atenção vai ver que ele só reitera esses pontos. Pra não gerar confusão, vou dar exemplos atuais e contextualizar com alguns de períodos do passado.

Micro-recorte é um termo que eu meio que inventei, então não o levem tão à sério. É mais pra dar um termo pra uma situação específica sem ter que descrevê-la toda vez que for falar dela. Basicamente é aquele recorte que é tão específico, tão minucioso, tão focado em achados de um único ponto que basicamente não tem como dar errado: Você entra numa máquina do tempo e as pessoas olham pra você e dizem "olha só, mais um de nossos contemporâneos".

Claro que isso nunca aconteceria de fato porque SEMPRE existem buracos que tapamos com o nosso momento atual. Por exemplo um reenactment da Segunda Guerra Mundial que os buracos são tão minúsculos que não seriam tão estranhados, mas o sotaque de um alemão de hoje que é diferente do de 70 anos atrás e as gírias usadas pelos pracinhas brasileiros talvez não sejam tão fáceis de reproduzir. E olha que tem gente daquela época ainda viva e que provavelmente não lembra o gosto do pão que comia em 1944, mesmo que saiba a receita de cor.

Quanto mais longe você vai no tempo, maiores são os buracos e mais notáveis eles são pra quem está vendo. Isso tem a ver com o corte das roupas, cores usadas em escudos, proporções de peças de armadura em relação ao corpo... Talvez o que seja óbvio para nós fosse ligeiramente diferente para eles.

Então, voltando ao micro-recorte, nós escolhemos um ponto no mapa e o recriamos. Mas não digo uma região, uma ilha, uma vila ou uma casa. Eu digo uma única pessoa. Aí diminuímos os buracos. Por exemplo o Homem de Bocksten, um sueco do século XIV cujo corpo foi preservado em um pântano com suas roupas. Nesse caso nós temos quase que em perfeito estado de conservação suas roupas e alguns de seus acessórios. Vestindo roupas feitas da mesma maneira e usando réplicas dos outros objetos, que não são tão difíceis de se reproduzir hoje em dia, você com certeza vai se parecer com um homem do século XIV, mesmo que com alguns buracos.

Outros exemplos desses casos são dos montes funerários de Vendel e Valsgärde, por exemplo, embora mais ligado aos equipamentos bélicos. Ou o achado de Gjermundbu, com direito a Vários aparatos reunidos num mesmo local. Escolha sua época e estou certo que vai achar algo.

Mas daí surge sempre o problema de como tampar os buracos que às vezes são maiores do que a informação obtida. A solução mais fácil, mas nem sempre a mais correta, é expandir de um corpo pra casa em que ele habita. Não literalmente, isso é uma analogia, claro.

E é aí que os buracos viram problemas.

Exemplo: eu quero reconstruir um chefe sueco do século VII. Busco uma referência em Valsgärde e remonto tudo que há dentro da cova nº6. Daí falta alguma peça, eu procuro em uma tumba vizinha do mesmo complexo.

Pronto, tenho elmo, escudo, lança, machado, espada, sax, uma pouch, fivela de cinto e por aí vai. E aí eu procuro uma túnica e não encontro. Mas quero me localizar APENAS em Valsgärde, para não cometer gafes de autenticidade. E não tem túnica nas covas mais régias. "Mas tem uma túnica logo ali", a menos de, sei lá, 50 metros dos montes funerários. Suponha que o homem de Bernuthsfeld estivesse num rolê pela Suécia e não na Saxônia quando morreu. Bom, aí você encontrou uma túnica do mesmo período na mesma região! Vou tapar o buraco com ela, claro.

NÃO!

Esse é o problema do micro-recorte. O buraco que você tenta tampar da maneira mais lógica de acordo com o que você tem na área. E isso daria uma incoerência diabólica.

Pra quem não conhece, a túnica de Bernuthsfeld é uma túnica do final do século VII ou começo do VIII que é exatamente um bando de retalhos de tecidos, qualidades, cores, formatos diferentes. É tipo um patchwork que deu muito errado. Mas alguém vestia. Só que esse alguém não era um chefe do período Vendel, com absofuckingluta certeza. Talvez ele pedisse esmola pro escravo de um dos subalternos de um chefe do período Vendel.

"Mas é a única túnica que tem na região e ela existe" (supondo que o cara estivesse na Suécia, porque não estava, só lembrando). Então essa é a política. Só tampa o buraco com algo de fora se não tiver esse algo dentro.

Isso é errado, porque seria a mesma coisa que, por exemplo, você soterrar um presídio hoje e daqui a mil anos escavá-lo e afirmar que os presos tinham acesso a armas, celulares, chaves e tudo o mais só porque isso foi encontrado no complexo. Tá bom que em alguns casos a coisa funciona assim, mas pense num presídio que segue a teoria.

Isso significa que não é porque está num lugar e na época certa que tudo caminha junto. E muitas vezes é melhor tapar o buraco com uma coisa do outro lado da montanha, do lago, do mar, do que procurar um equivalente local.

Por que isso? Exemplo que eu sempre digo pra todo recriador: um rei suéco de qualquer época tem MUITO mais em comum com um rei Anglo-Saxão do mesmo período do que com seus próprios súditos.

Querem exemplos? Vendel e Sutton Hoo. As semelhanças entre esses dois contextos é muito maior do que Sutton Hoo e Butler's Field. A Casa de Bernadotte tem muito mais em comum com a casa de Windsor do que com algum Lindenberg ou Claudiusson, pra realçar que isso ainda é regra hoje, mesmo a desigualdade social na Suécia e inglaterra serem bem menores do que era no século retrasado. E pra mostrar que nós não estamos tão alheios a isso, um cara rico estilo Silvio Santos ou Eike Batista (antes da falência e prisão) estaria muito mais próximo em termos de cultura material ou modo de vida do Donald Trump do que estaria de mim ou de você, leitor.

O micro-recorte só funciona quando ele tem pouco buraco. Se não a chance de fazer uma bagunça se torna ainda maior. Ver um sujeito pobre que se ferra pra pagar as contas no final do mês e que ainda assim deve o dobro do que recebe com uma Ferrari na garagem é no mínimo estranho. É como ver o homem de Bernuthsfeld carregando uma espada cheia de granadas e ouro.

O oposto é válido. Um rei não se vestiria com trapos. Se ele tem um elmo coberto de prata e pressblech, ele não vai usar uma fivela de ferro sem adornos. Se ele tem uma espada cheia de inlays, overlays e minhamãelays nas guardas e pomo, ele não vai usar sapatos mal-feitos.

Eeeeeentão, antes de definir um local específico, defina a época e a classe social do seu recorte. Porque eu vejo gente aqui e lá fora que seleciona um sítio arqueológico e se tranca nele. Veja bem, não é um problema dependendo do recorte, mas de novo, quanto mais pra trás no tempo, maiores os buracos. E alguns tipos de solo são excelentes pra nos prover com alguns tipos de material arqueológico e outros, outros tipos.

E vamos nos lembrar que as pessoas se moviam. O cemitério de Butler's Field, por exemplo, estava cheio de âmbar do Báltico. E obviamente o Rio Tâmisa não é o Mar Báltico. Ele chegou ali como? Viajando! A lamelar de Birka não foi feita em Birka. Ela chegou lá de algum jeito. Viajando! Sabe a Era Vendel? O comecinho dela também é chamada de "Era das Migrações". Fico me perguntando diariamente a razão pra isso, porque nem consigo imaginar.
Então, especialmente em contextos de maior mobilidade de pessoal, como Birka, Hedeby, Kaupang, York e esses só pra falar alguns dos mais puts-puts-badalação, é ainda mais "permissível" prum recriador pegar coisas de áreas mais distantes, porque é onde você tinha a maior confluência de gente.

Em um paralelo com um reenactment do período do império Romano, é como pegar a própria cidade de Roma como base. Ao retratar um comerciante romano que contrata mercenários pra defesa você praticamente abre espaço pra TUDO que existia no período do seu recorte, sem cair no risco de estar misturando de mais.

É diferente de eu querer ser um chefe em Trondheim em pleno século IX. Talvez tudo que eu tenha seja um escudo com uma bossa bem característica dessa época, uma espada de um gume com um hilt bem pobre e daí eu invisto na túnica ou calça. Porque é um lugar distante e com um acesso chato, a moda ia estar mais restrita.

Assim como Trondheim na Era Viking, você tem Visby um pouco antes do período de Kalmar. O que sabemos é que eles tinham um grande ajuntadão de armaduras ultrapassadas tecnologicamente, mesmo que algumas possuíssem insígneas de nobreza. Porque alguns tinham mais acesso do que outros ao que estava em voga no período, então muita gente reciclava ou continuava usando.

O elmo de Gjermundbu por exemplo data provavelmente do século IX, mesmo tendo sido aposentado no século X. E tinha um estilo similar a outros de cem, duzentos ou trezentos anos antes. As armaduras de Visby datam do final do XIII ou começo do XIV, tendo sido enterradas em 1361.

Então depois de cecidir sua classe social e período, você escolhe o local. Porque você pode olhar o que te agrada mais de acordo com o material arqueológico disponível e com o contexto que você quer chegar.

E expanda o recorte para que ele seja mais específico, por mais paradoxal que isso pareça. Independente da época, as condições do seu nascimento valem mais do que o lugar onde você nasce na hora de determinar como você vai se vestir, se portar ou ter acesso (estou falando de reenactment, please).

A região é importante, mas dependendo do recorte ela precisa ganhar outras proporções. "Jutlândia" é um recorte melhor do que "Tjele" ou "Viborg" para um huscarl juto. "Kattegat" é ainda maior em área, mas pra um ferreiro itinerante, como é um dos meus recortes, é uma área de atuação mais condizente. "Mar Báltico", ainda que absurdamente colossal se for parar pra pensar, ainda é mais apropriado pra um comerciante de iguarias do que apenas "Birka". "Mar do Norte" é ainda mais amplo, mas se você for uma espécie de rei do mar ou mesmo saqueador danês do mycel heathen here, é a sua área de atuação, você vai acabar tendo influências escandinavas, continentais e insulares no recorte. E isso vai ser positivo.

Percebem? Você nunca representaria bem nenhuma das esferas sociais acima se estivesse confinado a um só assentamento, porque tirando escravos, todos se moviam muito no período. E mesmo os escravos tinham uma origem liongínqua na maioria das vezes e acabavam reproduzindo costumes de seus povos mesmo em pequenas coisas como penteados e pequenos enfeites em suas coisas.

Então pensem em contexto, pensem em quem você quer retratar e não em um local. Afinal, não é porque você é uma mulher e vive com seu filho, seu marido e sua avó na mesma casa que você vai usar bolsa, tênis com luzes no calcanhar, terno e meias geriátricas (pode até rolar, mas naquela época isso seria encarado dum jeito pior do que geralmente é hoje).

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Equipamento pra isso, equipamento praquilo...

Bom, esse post é uma visão minha, mas sei que muitos artesãos e usuários concordam com essa opinião, então é mais pra terem uma certa base, não necessariamente levar como uma verdade absoluta e imutável. Mesmo porque as práticas que vou descrever aqui evoluem com o tempo e costumam mudar parâmetros de acordo com o que funciona melhor pros praticantes.

A questão principal aqui é sobre as diferenças ou similaridades de peças que são vistas em várias atividades e com diferenças enormes entre essas atividades, especialmente armas e armaduras. Afinal, se todas visam ser o mais fiel possível às originais, por que raios elas tem tantas especificações diferentes de acordo com o uso? Significa que uma atividade é mais "historicamente correta" que a outra? Ou que as pessoas não entenderam nada e customizaram as coisas de um jeito irreversível pra atender melhor suas exigências, ignorando a autenticidade?

Como a maioria dos leitores aqui sabem, sou artesão em tempo integral, especializado em artigos de ferro da Era Viking (ui! Pareceu sério agora), também sou reenactor e entusiasta de artes mariciais históricas européias (HEMAs) e estou entrando no mundo do buhurt. Pra que cazzo eu preciso dar o currículo depois de todo esse tempo do blog? Porque embora eu não seja o praticante quintessencial de cada uma dessas "brincadeiras", eu inevitavelmente convivo com cada meio o suficiente pra ter uma certa noção de como eles enxergam as coisas. E isso vale tanto pros dinossauros mais experientes no rolê quanto pros mais noobões. E todos tem pontos muito peculiares e antagônicos, mesmo que prum leigo pareça tudo a mesma joça.

O exemplo mais óbvio de arma, já que é a menina dos olhos de muita gente não poderia deixar de ser a espada. Vamos lá:

Imagine uma espada da Era Viking. Na média a gente tende a dizer que elas pesavam por volta de 1kg. Ou de 800g a 1,2kg. Mas veja bem, existem espadas desse período de 400 gramas. E outras de 1,9 quilos ( Como a C777 do Museu da Universidade de Oslo; uma reconstrução apropriada levaria pra 2kg, contando madeira do cabo e gume arrumado). Não são as "medianas", mas existem e são dignas de nota, se não por serem a regra, por serem a exceção.

Outro fator é alcance, tamanho, ponto de balanço, os pivots, o quanto a guarda pode ser longa, se tem um ou dois gumes e por aí vai.

Vamos supor, apenas supor, que houvesse uma categoria de buhurt ou duelos "pesados" com armas e armaduras dessa época. Num duelo, onde você precisa pontuar com golpes que fariam estrago, com quatro juízes olhando bem o que está acontecendo, uma arma de 2kg seria lerda de mais pra passar o escudo o tempo todo, mas com 1,02m poderia alcançar mais áreas desprotegidas. Uma de 400g não marcaria nenhum ponto "válido", isso se atingisse o alvo, tendo uns 50cm de comprimento.. Enquanto que num buhurt com várias pessoas, uma arma de 400g não seria nem sentida pelo alvo, enquanto uma de 2kg faria um belo estrago, mesmo que não mexesse tanto. E aí?

O esporte se desenvolve de forma autônoma às características de armas específicas e resolve "fechar o escopo" das armas do período. No caso a HMBIA, uma das grandes associações do esporte no mundo definiu esse ano de 2017 que espadas de uma mão devem ter entre 1300 e 1700 gramas e medir no total entre 72cm e 1m. Outra regra, essa já mais antiga, é que não valem estocadas, então basicamente ter uma ponta na arma não faz nenhum sentido.

O que isso faz? Você seleciona armas específicas do período pra entrarem nessa categoria e aí você otimiza ela pras suas necessidades. Você vai bater com os dois gumes? Então faça uma espada com um gume só. Você vai dar estocada? Então escolha um tipo de arma com um balanço mais adequado pra corte do que, por exemplo, uma espada de ponta. Você vai bater com força pra atingir uma armadura e não mirar em pontos específicos onde a armadura é mais frágil? Então aumente o peso e consequentemente a resistência da arma. Ela vai bater em ferro o tempo todo? Então escolha uma arma com um tratamento térmico que a deixe menos rígida. Não pode dar soco com a guarda? Então faz a guarda mais curta pra não ter risco. Ela não vai cortar? Então tire o fio. Etc, etc, etc...

Mas perceba que tudo isso pode ser escolhido dentro do leque de armas do período, sem a necessidade de invenção. Tirando, é claro, o tipo de aço usado e o fato de as armas serem cegas, mas isso também será dito aqui.

E se eu quisesse fazer uma reconstrução do combate com armas da Era Viking? Bom, suponha, SUPONHA que hoje de manhã encontraram uma pedra rúnica boladona numa ilha sueca com desenhos de posturas de luta e descrições. Pronto, viquens são oficialmente tema de HEMA! Aí você quer treinar aquilo lá. Você pega qualquer arma do período e treina. E daí você percebe que algumas se adaptam aos movimentos e posturas de um jeito melhor que as outras. Pois é, acontece o tempo todo, porque o Olaf (nome fictício), o cara que encomendou ou fez a tal pedra, talvez estivesse pensando "ei, eu tenho essa espada, vou fazer um guia de como usá-la". Ele não ia perder o tempo fazendo isso pra espada do Lars, o vizinho dele, que podia ser maior ou menor. Isso gera uma prática e você começa a usar apenas espadas parecidas com a do Olaf, porque a do Lars não ia funcionar.

Assim você tem armas nas HEMA. Não significa que quando Liechtenauer escreveu o tratado dele ele era universal e eterno. Se fosse os que vieram depois dele simplesmente não iam fazer mais nada além de copiar o estilo do anterior. Os sistemas de luta mudavam porque as armas do período também mudavam. Uma mudancinha aqui e ali na espada e pronto, a luta inteira tá diferente. Ou seja, você escolhe um leque, você foca nesse leque e você deixa o resto meio de fora porque se não a coisa perde a referência.

Por exemplo, se voltarmos a comparar a espada de meio metro e menos de meio quilo com a de quase um metro e quase dois quilos, se o objetivo é o toque, como em competições de HEMA esportivas, sem dúvidas mesmo sendo mais curta a levinha teria vantagens. Agora, se fosse "primeiro toque", a pesada talvez ficasse numa posição melhor simplesmente por ter quase meio metro de lâmina a mais.

O que você usa pra resolver o problema é bem simples: cria parâmetros. Não os mesmos da HMBIA pro HMB, porque você não quer golpes "que sejam letais" e você não está batendo num cara vestindo 30kg de armadura. Você faz a arma ligeiramente mais leve, tentando aproveitar o comprimeito e que seja mais segura.

Então como você faria pra treinar o imaginário tratado do mestre Olaf? Você pega uma lâmina que afunile mais na ponta, que seja mais longa, mais leve, com uma guarda um pouco maior pra segurança, uma espiga mais larga pra servir de contra-peso, uma ponta mais gordinha pra não perfurar o amiguinho, com uma parte mais flexível pra dobrar e voltar ao normal sem atravessar o amiguinho, dois gumes porque tudo o que vai volta, sem fio nesses gumes, por favor e a lista vai longe.

Olhando a espada do Olaf, você percebe que ela é igual (tirando o fato de ser cega, os materiais usados e a ponta) a algumas originais do período e você fala "minha espada é mais autêntica do que a do buhurt viking!". Mas não é. Porque nesse caso, ambas são autênticas, mas ambas são otimizadas pra função.

Bom, eu poderia fazer um parênteses pra falar de LARP e Swordplay/boffering ou soft combat. Só lembrando que por mais "não-espadas" que as espadas deles são, AINDA ASSIM se utilizam de originais em alguns casos e os transformam para uma atividade mais ou menos segura. Fazendo um paralelo é como usar Nerfs ou AEGs pra simular práticas com armas de fogo reais. A experiência e aparência mais real sem dúvidas vai estar no airsoft, mas ela AINDA não é uma arma real, mesmo que tenha incontáveis características que a deixem quase idêntica a uma real.

Chegamos ao reenactment, afinal de contas e deixei por último aqui por ser o tema original do blog. E também porque quando falamos de reenactment temos vários tipos de reenactment diferentes e isso deve ser visto com cuidado na hora de fazer uma análise das espadas usadas.

Num recriacionismo de combate, diferente da HEMA viquem do Olaf, você quer o plural, não o individual. E é curioso que daí você foca no individual pra isso. Eu gosto da espada de 2kg. Meu amigo da de 400g. Depois mais cinco membros do grupo gostam de espadas medianas. criamos regras simples de combate, batemos sem tanta força, mas com alguma, decidimos onde vale e onde não vale porque, "ei! tem gente sem camisa lutando!" e daí cada um se acostuma com uma arma ou com a outra. Não é um esporte. Não existe tanto o conceito de vantagem ou equivalência. Como você cria regras prum duelo de espadas quando só um lado efetivamente usa uma espada e o outro uma lança?

Vale tudo. Digo, vale o que é autêntico. Tanto a "espada Olaf" quanto a "espada buhurt viquem". E vale uma porção de outras espadas, desde que todas tenham paralelos reais. Maaaaaassssss...

Não são afiadas. Não são pontiaguas. Não precisam ser super resistentes ao impacto. Não precisam ser super flexíveis. Mas veja só, não é como se as do período fossem, afinal, ninguém quer estocar num inimigo numa luta até a morte e ver a espada envergando feito uma mola ao invés de atravessar a pessoa.

Ela cumpre a função, então tá bom.

E num recriacionismo mais visual ou técnico/tecnológico? A coisa muda. E muda dependendo do grau que você quer levar isso. Suponha que quero fazer um teste de corte de uma espada viking. "Será que a C777 decepa uma cabeça num corte limpo?"

Você vai e pega uma réplica da espada específica, ou faz uma peça conjectural baseada em diversas originais. Mas faz usando aços modernos. Você dá todo o tratamento térmico ideal e tudo o mais. Você pega gelatina balística e umas coisas duras como osso e tendões e monta seu crash test dummy (mmm mmm mmm mmm). E ela corta!

Isso significa que a danada e suas réplicas são fenomenais e decepam cabeças. Só que não.

O que você fez foi otimizar a lâmina pra uma perfeição, uma concepção de tudo de ideal que existisse na época. Mas você usou materiais diferentes, com propriedades diferentes. O resultado é diferente. Não que uma lâmina real não fosse capaz do feito, mas ele poderia dobrar, cegar com mais facilidade, quebrar de tão duro, amassar ao bater no osso e por aí vai.

Você vai lá depois e replica a C777 usando materiais de época e tudo o mais. E refaz o teste. Sucesso!
É, não. O que você sabe é que uma espada como aquela teria passado no teste, mas não saberá jamais se aquela espada teria. De qualquer forma, aí sim você vai ter uma espada que é o mais autêntica possível pro período, mas ela vai ser usada pra quê?

Uma função das espadas na época, além de mostrar poder, era ser usada contra outras pessoas (pra não dizer "cortar gente"). Se não bate em pessoas e não demonstra poder, meio que filosoficamente falando nem é espada. Mas a que foi usada num reenactment de combate, na HEMA do Olaf e no buhurt viquem pelo menos são usadas em lutas, ainda que lutas controladas. Mas é, claro, se você quer uma espada que realmente tenha todo o potencial de ser idêntica a uma original, você tem. Se rolar um cenário pós apocalíptico eu tenho certeza que ela vai fazer tudo que uma espada oldschool faria.

E por que não usar materiais autênticos em todas, pra que todas ficassem mais próximas? Porque você não tem certificado de garantia e muitas vezes você está lidando com a saúde e com o bolso das pessoas e tem gente que vira o bicho quando você ameaça qualquer um desses dois. Um aço de uma fornalha de redução medieval, além de ser extremamente mais caro de se produzir, pode quebrar num estoque. Imagine ele atravessando sua máscara de HEMA. O soviético Vladimir Viktorovitch Smirnov teria algo a dizer sobre isso, mas ele morreu na hora (e olha que era um aço moderno. E alemão).

No fim, você tem várias peças que focam em pontos da autenticidade diversos e que diferem muito entre si, mas possuem muito mais em comum do que parece. Exceto, claro, pelo fio, ponta e material, talvez eu pudesse usar uma espada de 1,3kg, de 95cm de comprimento, com uma lâmina mais rígida e com uma certa flexibilidade pra quase todas as tarefas citadas acima. Obviamente ela não cortaria, mas poderia ter um bom balanço, dar golpes fortes sem demorar pra tomar uma resposta e seria usada em combates mais ou menos reais.

O exemplo da espada aqui foi apenas um mais marcante, embora nem de longe o post seja sobre elas. A mesma lógica vale pra quase qualquer arma e também para armaduras. Tudo, claro, em maior ou menor grau.

Uma maça de seis flanges por exemplo, dentro das regras da HMBIA, poderia ser exatamente igual a uma reprodução fiel de uma original, uma usada para um reenactment ou uma usada para testes de impacto. Até o material nessa equação poderia ser o mesmo das originais, ainda que isso aumentasse o custo pra quem fosse comprar. A diferença seria, talvez, uma chanfrada maior nas quinas, que também não é algo impensável pra peças originais, já que o mesmo chanfro podia ajudar na penetração em armaduras. E ao contrário de armas afiadas, as armas cegas também podem ser mais fieis às dimensões e funções originais delas.

Já em armaduras a analogia com a espada é mais visível. Dependendo do quão severa for a atividade você precisa aumentar a espessura dos materiais, a qualidade dos mesmos e por aí vai. Enquanto que pra outras práticas você pode usar armaduras mais leves, mais finas, com materiais menos nobres, sem que uma seja necessariamente mais autêntica do que a outra.

Por exemplo um elmo para reenactment com 1mm ou 1,5mm estão de bom tamanho, já que geralmente as lutas não são tão violentas quanto um buhurt, que exige pelo menos 2mm para a cabeça, ainda que 2,5 e 3mm sejam de longe melhores. Algum é mais "historicamente correto" que o outro? De fato armaduras não eram tão grossas no passado, mas não por falta de capacidade. Existem peças de armaduras de justas que chegam a 5-6mm. Então fazer algo especificamente para competição é uma atitude historicamente correta, no fim das contas. E hoje o buhurt é um esporte, tal qual o era antigamente.

O fato mais importante é que todo reenactor, lutador de buhurt, artista marcial, entusiasta e artesão devem conhecer as peculiaridades da atividade que praticam. O que pode ser uma peça excelente para um grupo pode ser terrível pro outro, ainda que seja uma reprodução perfeita (com as adaptações devidas) de uma peça original. E o melhor de saber identificar é que você descobre até se aquela sua velha espada usada no reenactment do século XIV serve pra um Battle of the Nations, por que vai quê?

Não basta conhecer recorte, conhecer o período, conhecer as armas, tipologias, armaduras, formas, cores e nomes. É fundamental conhecer a atividade que você tem como hobby, profissão ou estilo de vida, pra não levar gato por lebre, mas também lebre por gato.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A falácia das técnicas de combate com facas na Era Viking.

Boa noite a todos e espero que estejam tendo um excelente início de ano. Porém, como nem tudo são flores, eu vou escrever um texto sobre um assunto que tem me incomodado um pouco recentemente. E um texto que vai incomodar muitos dos mais sensíveis.

Não é incomum que quando começamos a frequentar treinos de um grupo de reenactment mais voltado para o combate, ou mesmo algum que apenas lute eventualmente, nós vemos pessoas treinando com armas mais comuns e mais baratas. É natural que assim seja uma vez que é mais fácil você ver grupos com muitos machados e facas do que espadas. E no caso do reenactment viking virou uma trend os grupos iniciarem os treinos com tocos de madeira imitando saxes e langsaxes/longseaxes justamente pela disponibilidade e segurança da coisa.

Porém, apesar de isso ser um pouco incômodo, não é o maior problema. E conversando com meu amigo F. Breda, líder do grupo de recriacionismo do período Anglo-Saxão Inglês Beorningas, do interior de São Paulo, meio que mapeamos o real perigo disso: quando afirmam que são técnicas de combate com saxes, usadas pelos vikings/saxões e quem mais quer que eles digam nesse momento.

A verdade é que muita gente traz bagagens de diversas artes marciais na hora de desenvolver um sistema de combate com facas. Entre as mais comuns o Systema/Sistema, Kali Silat, Krav Maga, Ninjutsu ou outras usadas principalmente em exercícios militares. E essa bagagem nada tem a ver com como os nórdicos (ou outros povos) encaravam o combate com essas armas.

A aproximação mais racional que podemos pensar de como essas lutas eram feitas é pensar nos manuais italianos ou alemães dos séculos XV ou XVI sobre duelos de adagas, mas eu jajá explico o porque isso seria um erro. De qualquer modo, os mestres do século XVI estão para os "vikings" (vou usar o termo aqui algumas vezes pra localizar você, leitor, no tempo e região da Era Viking, não me referindo apenas aos escandinavos saqueando de navio por aí, ok?) assim como nós estamos para os mestres do século XVI, ou seja, tem uma barreira de pelo menos 500 anos aí. Que por sinal é quase a mesma que divide o final da Era Viking do começo do Período Saxão Britânico e do Volkerwanderung.

Bem, agora vamos fazer um exercício de brainstorm. Na maioria, as lutas modernas de combate com facas tem por finalidade a defesa pessoal, certo? E num geral você acaba aprendendo a reação através da repetição e de um treino com uma metodologia específica. No grosso: você observa um professor/instrutor, você se coloca no lugar do atacante, você faz o golpe várias vezes, você decora, você aprende. Fica automático. E não, eu não estou questionando a validade disso, funciona, nos exércitos funciona, isso é útil porque tem aplicação prática, porque você não toma a decisão, seu corpo já sabe o que fazer antes que você se coloque numa situação de risco. Mas... Qual era a função disso no século X?

"Defesa pessoal, claro!" Não! E por que não? Vamos lá:

Você aprende isso em defesa pessoal no século XXI porque você parte do princípio de que alguém vai te atacar com uma faca na rua. Porque existe em geral uma proibição ou restrição, dependendo do país, ao porte de armas de fogo e então é mais fácil trombar com alguém armado com uma butterfly ou um canivete do que com um revólver, por exemplo. Embora, claro, no Brasil a regra pode ser diferente dependendo do estado. O fato é que você se prepara, no caso de praticar essas artes marciais, pra esse tipo de situação. E não estou falando dos treinos e técnicas pra armas de fogo porque obviamente elas não estavam por aí no período que o blog se propõe a ilustrar.

De qualquer modo, você espera poder ver o seu atacante e você espera estar em uma distância em que seja possível usar as técnicas de combate com facas, seja você a pessoa armada ou o outro. Se você tira esses dois fatores, você pode ter sua faca AK47 que ela não vai fazer efeito nenhum. Meio óbvio.

Agora pense bem nesses últimos dois parágrafos. Aposto que se imaginou andando na rua de madrugada e percebe que tem alguém te seguindo. Ou viu alguém suspeito de longe, ou viu alguém fazendo alguma coisa suspeita e colocou a mão no bolso, onde está seu canivete, ou no caso de um militar no meio da guerra da Síria, você se imaginou ficando sem munição ou enfrentando alguém sem munição ou querendo causar uma baixa oportuna sem revelar sua posição. Ou ainda uma briga de bar ou um sequestro onde alguém dominou o outro com uma faca na garganta. Não sei, podem ter imaginado muita coisa.

Mas nenhuma dessas realidades é a regra pra Era Viking.

Primeiro que você não pensa em cidade da forma como nós as pensamos hoje. Segundo porque fora delas você pode andar com armas muito mais efetivas e que não são difíceis de se arrumar. Terceiro porque você não tinha tempo ou posição social pra fazer o que bem entendesse. E essa terceira é pesada, mas é real.

Vamos lá, imagine um centro comercial. Uma cidade, claro, mas não como as nossas hoje em dia, a menos que estivesse falando de Roma ou Constantinopla e mesmo assim, não. Mas pense em Hedeby em seu apogeu. Ou Birka. Existe um chefe local, um jarl ou mesmo um rei tomando conta do lugar. E ele não quer o lugar saindo do controle e nem quer perder os visitantes com notícias de que o lugar é violento. Porque ele lucra com o comércio ali. Ele vai ter homens armados andando por ali, tipo cena de filme, fazendo rondas, mantendo a ordem, via violência mesmo. E sem facas, vai ter é nego de machados, escudos, cotas de malha provavelmente, talvez espadas e principalmente lanças e arcos. E olha só, não vão andar sozinhos. Então combate de facas contra dois ou mais homens armados com coisas que mantém a distância com certeza não vai funcionar bem.

"Ah, mas você pode chegar por trás e cortar a gargante de um deles antes do outro ter uma reação." Se você é do tipo que adora Assassin's Creed, você pode se perguntar sobre isso e sim, você pode, mas não existe muita técnica necessária pra degolar alguém na surdina. Nem pra dar uns backstabs.

Além disso as cidades, como já falei, não eram como hoje. As pessoas viam as coisas. Não tinha no norte da Europa essa ideia de becos escuros no século X. E a maioria dos vikings não viajava pra Constantinopla toda semana pra precisar tanto assim aprender a se defender em becos, porque se eles iam prum beco com certeza estariam com mais algumas pessoas do lado.

Então a necessidade do combate com saxes em realidades urbanas não existia. Pra que você ensina um cachorro a apertar o botão do elevador se você mora num sítio sem elevador?

Agora em situações em lugares menores. Vilarejos ou estradas.

Numa vila pequena você pode usar um sax pra se defender de animais selvagens. Você não precisa desenvolver uma arte marcial pra isso, porque, né... Mas você pode usar pra impedir ser estuprada pelos homens do chefe local. Que estão armados com outras armas, com armaduras, em maior número, que passaram a vida inteira treinando o uso com essas outras armas e que, caso morram todas nas suas mãos ninjas, vão ser notados e alguém vai te caçar com cães farejadores (bem comuns naquela época) e vão te matar. Significa que acho que as mulheres sozinhas deviam ficar quietas e aceitar? Não, só digo que o mundo era diferente e tinha outras regras em vigor.

Mas você podia usar uma faca pra se defender de outras pessoas, claro, mas num geral elas também não sabiam combate com facas, porque era uma habilidade sem sentido quando podem lutar com rastelos, machados e panelas com água fervendo, então seria como dois militares de mesmo nível em artes marciais lutando. Só que menos aprazível de se ver.

Percebem? Você tinha várias coisas mais ameaçadoras do que facas sempre a mão nesses lugares ou uma faca não faria nenhuma diferença contra outras pessoas, assim como uma espada de uma mão não vai ser muito útil contra um urso emputecido.

Mas pense numa estrada. Um assalto! É, ninguém vai sair de uma estrada com uma faca na mão na calada da noite e anunciar ou falar "perdeu" ou "fica quieto", porque ninguém vai ouvir mesmo. Assaltantes, sobretudo durante a Idade Média, tem por característica básica serem rápidos e desleais. Covarde pode ser uma palavra. Eles ficariam sobre as árvores com arcos e flechas, bloqueariam a estrada com troncos e pedras e só atacariam se estivessem em maior número com certeza de sucesso usando surpresa. Não sei se visualizou a cena, mas um sax não faz muita diferença nesse cenário.

Num navio também não, porque você geralmente vai ter muitos outros elementos ao redor e ainda que só tivessem duas pessoas a bordo, pegar um remo e derrubar o outro seria muito mais inteligente.

E por fim, a batalha!

Pois é, langsaxes provavelmente eram usados em batalha. Você tem um monte de gente grudada se empurrando contra um outro exército, você não consegue mexer muito seu braço e um facão bem pontudo é a melhor coisa que vem na sua mente por baixo do seu escudo. Ou você tem um sax desembainhado na mão do escudo enquanto luta com outra arma na outra mão. Perfeito. Parece funcional? E é!

"Aí, meu, então combate com facas é útil pra reenactors!" Erm... Não vá tão longe assim.

As pessoas treinam duelos de um contra um, armados com nada além de saxes (ou pedaços de madeira) iguais, sem distrações externas. Isso soa como uma batalha pra você? Assista o episódio "A Batalha dos Bastardos" do Game of Thrones pra entender o que é uma batalha. Ou assista Henry V. Ou simplesmente faça uma shieldwall no final de semana com seu grupo e os grupos mais próximos pra você ver que não existe essa coisa de duelo de honra quando você coloca uns vinte marmanjos armados querendo matar uns aos outros. Assista uma final de buhurt no Battle of the Nations pra ter uma noção. Não, amigos, não faz sentido você aplicar golpes de jiu jitsu no meio duma situação onde o amigo do seu oponente pode simplesmente pisar na sua cabeça ou apontar uma lança pra você largar.

Tem um outro detalhe sobre as bainhas dos saxes. Justamente por conta de tudo isso, você não precisava de uma bainha de kydex ou PVC de saque rápido. Uma vez o A. Pessoa do Haglaz comentou sobre a bainha manter o gume pra cima na grande maioria dos saxes e achava isso estranho. O sax nunca foi uma arma de saque rápido. A bainha serve pro transporte, mas se você precisar sacar o sax numa batalha aberta, você morria porque tinham armas muito mais apropriadas pra isso. E se você pretendesse entrar numa batalha onde uma faca de 40cm precisasse ser usada além de uma espada, machado ou lança, você já entraria com ela desembainhada.

Bom, aí alguém me pergunta sobre os manuais de esgrima da Renascença.

Primeiramente eles são da Renascença, quando havia cidades propriamente ditas. Depois eles mostram duelos, que era uma prática comum pra disputas legais. Era como ter um bom advogado, mas ele cortava. Terceiro que eram adagas na maioria das vezes e elas funcionam de uma forma bem diferente do que um sax. Quarto que ambos usam as mesmas armas. E quinto, não esperava que pessoas andassem por aí usando lanças ou rastelos como bastões de caminhada.

Além disso, o mais próximo de um sax seria um dussack/tessak, não uma adaga e mesmo assim, as situações acima mencionadas são as mesmas.

"Então quer dizer que não se usava uma faca enorme como arma?" Bom, eu já disse que se usava e muito e em muitas situações, mas o ponto desse texto é excluir das nossas cabeças os sistemas de combate com facas. Que não cabiam no contexto deles, com escudos, lanças, machados e outras coisas do gênero. Seria o mesmo que você se defender com um estilete gasto com vários gominhos já arrancados. É possível, é funcional, mas é tão variável e não padronizado que você tem que improvisar, porque um sistema estabelecido vai deixar mais buracos do que ele consegue tapar.

Então, parem de dizer que os vikings lutavam com facas como membros de forças especiais, porque eles não faziam isso. E o treino de artes marciais modernas no reenactment é anacrônico.

Mas não estou dizendo que é errado e que tem que parar de fazer, pode ser uma coisa divertida, lúdica, pode ser uma atividade física, você pode treinar com seu grupo pretendendo usar aquilo pro dia a dia (afinal, mesmo sem usar numa luta de recriação, você pode usar na vida aqui fora). Mas não pode é dizer que vikings lutavam Kali Silat e nem acreditar que eles tinham sistemas padronizados de ensino de artes marciais. Isso é bobagem, ingenuidade ou agir de má fé.

Enfim, espero que entendam os pontos aqui expostos.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Armadura lamelar na Escandinávia Viking


Reconstrução de um guerreiro de Birka. Hjardar -Vike 2011: pág. 347.
Traduzido por: Stephany Palos e
Hrafnar.
Essa é uma tradução autorizada de umartigo publicado por Tomáš Vlasatý, colega historiador e recriacionista histórico da República Tcheca do projeto Forlǫg, sobre o uso da armadura lamelar na Escandinávia durante a Era Viking, especialmente durante os séculos X e XI d.C. Se você gostou deste artigo, você pode apoiar o autor no site Patreon.
A questão da armadura lamelar é popular entre os especialistas e entre os reencenadores, tanto os veteranos quanto para os mais leigos. Eu mesmo lidei com essa questão várias vezes o que me levou a muitas descobertas, praticamente desconhecidas, desde o Snäckgärde de Visby à Gotland, que não sobreviveram, mas são descritas pelo padre Nils Johan Ekdahl (1799-1870), que pode ser chamado de “O primeiro arqueólogo cientifico de Gotland”.
As conclusões do Snäckgärde, em particular, são desconhecidas, e foram encontrados a menos de 200 anos atrás e assim como também foram perdidas. A literatura que escreve sobre este tema é pouco acessível, e os estudiosos sobre o assunto que não são suecos, dificilmente o conhecem ou tem acesso a ele. Tudo o que eu consegui descobrir é que no ano de 1826, foram examinadas 4 sepulturas com esqueletos na localidade de Snäckgärde (Visby, Land Nord, SHM 484), e o mais interessante dessas 4 sepulturas, estão nas sepulturas 2 e 4 (Carlson 1988: 245; Thunmark-Nylén 2006: 318)
Sepultura nº 2: sepultura com esqueleto voltado para a direção Sul-Norte, acompanhado por algumas pedras esféricas. O equipamento funerário consistia de um machado de ferro, um anel localizado na cintura, dois grânulos opacos na área do pescoço e “algumas peças de armadura sobre o peito” (något fanns kvar and pansaret på bröstet).
Sepultura nº 4: sepultura com esqueleto orientado na direção Oeste-Leste, túmulo esférico com altura de 0,9m e afundado ao topo. Dentro encontra-se um caixão de pedra calcaria, medindo 3m×3m. Foi encontrado uma fivela no ombro direito do corpo. No nível da cintura, foi encontrado um anel do seu cinto. Outra parte do equipamento consistia em um machado e “várias escamas de armadura” (några pansarfjäll), encontrada em seu peito.
A julgar pelos restos funerários, pode-se supor que as sepulturas correspondem a dois homens que foram enterrados com armadura. Claro, não podemos dizer com certeza que tipo de armadura era, mas parece ser uma armadura lamelar, sobretudo pelas analogias que apresentam com outros achados (Thunmark-Nylén 2006: 318). Data-los é algo problemático. Lena Thunmark-Nylén tentou fazer em suas publicações sobre a Gotland viking. Nelas, datam as sepulturas como pertencentes a Era Viking, devido as características das fivelas e dos cintos. No entanto, os resultados que parecem ser mais importantes para esta questão, são os machados. Principalmente o que foi encontrado na sepultura número 2 (jugando pelos desenhos de Ekdahl, que parece ser um machado de duas mãos danes), foi datado a partir do final do século X d.C. ou início do século XI d.C. (ver http://sagy.vikingove.cz/nekolik-poznamek-k-pouzivani-sirokych-seker/).
O que era pertencente a sepultura número 4, estava recoberta de bronze. Ambos os recursos dos machados são similares a outros exemplares do século XI d.C., por isso, podemos supor que as sepulturas pertencem a este mesmo período, apesar de que há algumas variações na estrutura e orientação das tumbas (ver  http://sagy.vikingove.cz/hrob-langeid-8/).

Salão com os achados de anéis e outras peças das armaduras lamelares. Retirado de Ehlton 2003:16, Fig. 18, Criado por Kjell Persson.
As lamelas estavam espalhadas em volta do chamado Garrison (Garrison/Garnison) e eles numeraram 720 peças (a maior parte continha a partir de 12 peças). 267 lamelas poderiam ser analisadas e classificadas em 12 tipos, o que provavelmente serviu para proteger partes diferentes do corpo. Estima-se que a armadura de Birka protegia o peito, costas, ombros, barriga e pernas até os joelhos (Stjerna 2004: 31). A armadura foi datada da primeira metade do século X (Stjerna 2004: 31). Os estudiosos concordam que a lamelar é nômade, com origem no Oriente Médio, próximo a Balyk-Sook (exemplo retirado de Dawson 2002;Gorelik 2002: 145; Stjerna 2004: 31). Stjerna (2007: 247) pensa que a armadura e outros excelentes objetos não foram designados para a guerra, e eram muito simbólicos (“A razão para se ter tais armaduras, foi certamente outra que não militar ou prática“). Dawson (2013) está parcialmente em oposição e afirma que a armadura foi erroneamente interpretada, pois apenas três tipos de oito poderiam ser lamelares, e o número de lamelas reais não é o suficiente para meio peitoral da armadura. A conclusão dele é que as lamelas de Birka são somente pedaços de sucata reciclada. Na luz das armaduras de Snäckgärde, que não estão incluídos no livro de Dawson, eu particularmente, considero esta afirmação muito precipitada.
Reconstituição da armadura de Birka, baseada na armadura de Balyk-Sook. Retirado de Hjardar –Vike 2011: 195.
As pessoas muitas vezes pensam que há muitos achados na área da antiga Rússia. Na verdade, existem apenas alguns achados do período que consiste entre o século IX ao XI, que pode ser interpretado como importações do Leste, assim como o exemplo de Birka (conversa pessoal com Sergei Kainov; ver Kirpicnikov 1971: 14-20). A partir deste período inicial, os achados vêm do exemplo de Gnezdovo e Novgorod. O material russo deste tipo, datado entre os séculos XI e XIII d.C., é muito mais abundante, incluindo aproximadamente 270 achados (ver Medvedev 1959Kirpicnikov 1971: 14-20) sendo importante notar que desde a segunda metade do século XIII d.C., os números de fragmentos de argolas de cota de malha são quatro vezes maior que lamelas de armaduras lamelares, apontando que a malha era o tipo predominante de armadura no antigo território russo (Kirpicnikov 1971: 15). Com grande probabilidade, a armadura lamelar da antiga Rússia da Era Viking, vem do Bizâncio, onde era muito dominante, graças ao seu design simples e ao baixo custo de produção, já no século X (Bugarski 2005: 171).
Nota para os reencenadores
A armadura lamelar tornou-se muito popular entre os reencenadores históricos. Tanto que em alguns festivais e eventos com batalhas, as armaduras lamelares constituem de 50% (ou mais) do que outros tipos de armadura. Os principais argumentos para o uso são:
  • Baixo custo de produção
  • Mais resistente
  • Produção rápida
  • Parece ser mais legal
Embora estes argumentos sejam compreensíveis, eles permanecem totalmente inadequados. Para contrariar tais argumentos não é correta na reencenação histórica dos nórdicos da Era Viking. O argumento de que este tipo de armadura foi utilizado pelos Rus, pode ser contrariada, mesmo em tempos de maior expansão das lamelares na Rússia, o número de armaduras de malha de metal (cotas de malha), quadriplicou, além de que a primeira citada (armadura lamelar), eram importadas do Oriente. Se mantivermos a ideia básica que a recriação histórica deve-se basear-se na reconstrução de objetos típicos, então nos deve ficar claro que a armadura lamelar é adequada apenas para recriação de guerreiros nômades e bizantinos. Obviamente, o mesmo se aplica a armadura lamelar de couro.
Um bom exemplo de armadura lamelar, Viktor Kralin.
Por outro lado, os achados de Birka e Snäckgärde sugerem que na região oriental da Escandinávia poderia haver uma recepção deste tipo de armadura. Mas antes de qualquer conclusão, temos que levar em consideração que Birka e Gotland tinham um fluxo grande, frequentemente visitadas por comerciantes de uma longa distância e outras grandes massas de pessoas, provenientes em particular da Europa Oriental e Bizâncio, assim como tinha uma grande influência nestes locais. Esta, também é a razão, para a acumulação de artefatos de proveniência oriental, que não eram encontrados na Escandinávia. De certo modo, é estranho que não foram realizados mais achados similares nestas áreas, especialmente correspondentes ao período do domínio bizantino. Mas isto não quer dizer que as armaduras lamelares foram frequentes nesta área, pelo contrário, este tipo de armadura se encontra quase isolado de qualquer tradição guerreira nórdica. Por outro lado, a armadura de malha, como na antiga Rússia, pode ser identificada como a forma de armadura predominante na Escandinávia durante a Era Viking. Isso pode ser verificado pelo fato de que os anéis de cota de malha, em si, foram encontrados em Birka (Ehlton 2003). Com respeito a produção da armadura lamelar no território escandinavo e russo, não existe nenhuma evidencia que demonstre que isso acontecia.
Para incluir a armadura lamelar no recriacionismo histórico, deve-se cumprir:
  • Unicamente fazer reconstrução das regiões do Báltico e Rússia.
  • Permitir um uso limitado (por exemplo, uma armadura por grupo ou um por cada quatro pessoas com cota de malha).
  • Somente utilizar as lamelas de metal. Nada de couro.
  • As formas das peças utilizadas devem corresponder com os achados de Birka (em alguns casos são vistos alguns modelos de Visby, sendo isto um grande erro).
  • Não combinar com elementos escandinavos (fivelas, cintos, roupas, etc.)
  • A armadura deve ser semelhante a original e deve estar acompanhada das demais partes do traje.
Se estamos agora em um debate entre as duas posições: “SIM, usar a armadura lamelar” ou “NÃO, não se deve usar a armadura lamelar”, ignorando a possibilidade de “ sim ao uso da armadura lamelar (mas com os argumentos mencionados) ”, eu escolheria a opção “sem armadura lamelar”. E o que você acha?
Bibliografia
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Carlsson, Anders (1988). Penannular brooches from Viking Period Gotland, Stockholm.
Ehlton, Fredrik (2003). Ringväv från Birkas garnison , Stockholm. Online: http://www.erikds.com/pdf/tmrs_pdf_19.pdf.
Dawson, Timothy (2002). Suntagma Hoplôn: The Equipment of Regular Byzantine Troops, c. 950 to c. 1204. In: D. Nicolle (ed.). Companion to Medieval Arms and Armour , Woodbridge, 81-90.
Dawson, Timothy (2013). Armour Never Wearies : Scale and Lamellar Armour in the West, from the Bronze Age to the 19th Century, Stroud.
Gorelik, Michael (2002). Arms and armour in south-eastern Europe in the second half of the first millennium AD. In: D. Nicolle (ed.). Companion to Medieval Arms and Armour, Woodbridge, 127-147.
Hedenstierna-Jonson, Charlotte (2006). The Birka Warrior – the material culture of a martial society, Stockholm. Online: http://su.diva-portal.org/smash/get/diva2:189759/FULLTEXT01.pdf.
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